Em Sergipe, abrir a torneira virou quase um ato de fé. Em 7 de setembro, a própria Iguá reconheceu redução no abastecimento em Marcos Freire I, II e III e em vários outros bairros de Nossa Senhora do Socorro. Dois dias depois, um rompimento na Adutora do São Francisco derrubou em 60% a produção da ETA João Ednaldo, atingindo Aracaju, Socorro e Barra dos Coqueiros. A conta encontra o endereço sem dificuldade. A água, pelo visto, ainda está procurando no GPS.
E não é apenas a Grande Aracaju. Nos últimos dias, a própria página da Iguá registrou interrupções ou manutenções emergenciais em Estância, Riachuelo, Lagarto, Tobias Barreto e, por rompimento da Adutora Sertaneja, em Amparo, Canhoba, Nossa Senhora de Lourdes, Aquidabã, Itabi, Graccho Cardoso, Cumbe, Feira Nova e povoados de Gararu e Nossa Senhora das Dores. Em alguns casos, a conversa termina com aquela expressão que o sergipano já decorou: “normalização gradual”. Gradual mesmo. A paciência do consumidor é que está acabando de forma acelerada.
O mais constrangedor é que tudo isso acontece quatro meses depois de um acordo intermediado pelo Ministério Público, com participação da Iguá, Agrese, PGE e Sedurbi, prevendo aproximadamente R$ 32 milhões em investimentos, medidas emergenciais e compensações para consumidores atingidos pelo desabastecimento. Se existe dinheiro, acordo, agência reguladora, concessionária, Deso e Governo acompanhando o problema, a pergunta que sobra dentro do balde vazio é elementar: quando é que esse aparato todo finalmente vai produzir aquilo que interessa ao cidadão, água na torneira?
Para completar o simbolismo da crise, um vídeo postado pela Rádio TV Capela viralizou nas redes sociais ao mostrar um carro pipa em uma residência do tio do governador Fábio Mitidieri, na Atalaia. A imagem rapidamente incendiou o debate público. Posteriormente, foi divulgada a versão de que o caminhão teria sido contratado de forma particular apenas para repor água de uma piscina e de que o imóvel estaria normalmente abastecido, razão pela qual não há comprovação de privilégio público. Ainda assim, o impacto político e social da cena é inevitável: enquanto moradores de vários bairros relatam torneiras secas, dias de espera e sucessivos prazos para a normalização do serviço, um carro pipa diante de uma residência de alto padrão vira, por si só, o retrato incômodo de uma crise em que água começa a parecer artigo de luxo. Água é saúde, higiene e dignidade. E dignidade não deveria precisar chegar de caminhão.




