Primeiro, solidariedade. Solidariedade de verdade com o povo de Aracaju e com todo sergipano que está vivendo essa humilhação diária chamada falta de água. Porque uma coisa é faltar pressão na torneira. Outra, muito mais grave, é faltar dignidade. E quando chegam imagens de moradores do Santa Maria captando água em baldes em áreas de esgoto, o problema deixa de ser apenas administrativo e passa a ser humano, social e moral. Isso não é apenas crise hídrica, isso é vergonha pública escancarada.
No começo, a explicação era o famoso gato. Diziam que a culpa era das ligações clandestinas, como se o povo tivesse inventado a sede por esporte radical. Agora surge a nova temporada da série: sabotagem. Sergipe já não tem abastecimento de água, mas tem roteiro de suspense toda semana. Cada dia uma justificativa nova, cada coletiva uma nova temporada e a população segue no papel principal, sempre interpretando o personagem mais sofrido: o cidadão que paga a conta e toma banho de balde.
Se realmente houve sabotagem, isso é gravíssimo e precisa de apuração dura, séria e criminal. Quem pratica isso contra uma população inteira não comete apenas um crime patrimonial, comete um atentado contra a dignidade humana. Água não é luxo, não é favor e muito menos propaganda institucional. Água é sobrevivência. E se alguém transformou isso em instrumento de disputa, precisa responder com rigor. Porque brincar com a sede alheia não é política, é desumanidade pura.
Mas se não houve sabotagem e isso for apenas mais uma desculpa mal contada, aí o problema fica ainda mais feio. Porque significaria que o sergipano está sendo tratado não como cidadão, mas como plateia de um teatro mal ensaiado. O povo não quer coletiva de imprensa, quer chuveiro funcionando. Não quer nota oficial, quer água na caixa. Não quer explicação criativa, quer dignidade básica. A paciência da população já evaporou faz tempo.
A imagem de gente puxando água perto do esgoto é simbólica e cruel. Parece cena de filme sobre miséria extrema, mas é Sergipe em 2026, com conta chegando pontualmente e promessa de modernização no discurso. O carro pipa virou personagem fixo, a lata d’água na cabeça voltou como se estivéssemos andando para trás no calendário e agora o balde no esgoto entra como o capítulo mais triste dessa tragédia. Se isso for verdade, o governo precisa agir imediatamente, porque governar também é impedir que o povo precise escolher entre sede e contaminação.




