Aracaju virou palco de uma cena curiosa, quase surreal, daquelas que fariam até Eduardo Dusek soltar um verso irônico no meio da praça. De um lado, campanhas organizadas, reuniões institucionais, termos de cooperação, discursos bem alinhados em defesa dos animais. Tudo correto, tudo necessário, tudo digno. Do outro lado, a poucos metros dali, gente dormindo na calçada, crianças pedindo esmola no semáforo, famílias inteiras vivendo debaixo de lona improvisada. E aí vem a pergunta que ninguém gosta de fazer, mas que precisa ser feita, será que a prioridade está no lugar certo.
Não há aqui qualquer desprezo pela causa animal, muito pelo contrário. Maus-tratos devem ser combatidos, políticas públicas são urgentes, e quem cuida dos animais merece respeito. Mas o que incomoda é o contraste. Enquanto órgãos como Ministério Público Estadual, Ministério Público Federal e secretarias se unem com força para estruturar políticas para animais, o ser humano continua invisível em muitos cantos da cidade. E invisível não no sentido figurado, invisível mesmo, ignorado, esquecido, tratado como paisagem urbana.
Basta dar uma volta pela Praça Fausto Cardoso para entender o tamanho do problema. Barracas improvisadas, pessoas tomando banho em condições precárias, sem acesso a água potável, sem dignidade mínima. Gente que não precisa de diagnóstico técnico, precisa de ajuda imediata. E enquanto isso, o debate institucional segue firme, com pauta, cronograma e protocolo. A cidade real e a cidade institucional parecem viver em universos paralelos.
E o mais duro de tudo é ver crianças nesse cenário. Crianças nos semáforos, nos pontos de ônibus, estendendo a mão antes mesmo de aprender a escrever o próprio nome. Isso não é estatística, isso é falha estrutural. É o retrato de um país que ainda não conseguiu resolver o básico. E quando o básico não é resolvido, qualquer avanço em outras áreas, por mais importante que seja, soa deslocado, quase como um luxo fora de hora.
Talvez seja por isso que aquela velha ironia de Dusek ainda ecoe com tanta força, “troque seu cachorro por uma criança pobre”. A frase é provocativa, exagerada, desconfortável, e exatamente por isso funciona. Porque ela escancara uma contradição que muita gente prefere não enxergar. Não se trata de escolher entre um e outro, mas de entender que existe uma hierarquia de urgência. E hoje, nas ruas de Aracaju, a urgência tem nome, tem rosto e tem fome.
No fim das contas, o que se espera não é menos atenção à causa animal, mas mais equilíbrio. Mais sensibilidade. Mais presença do poder público onde a dor é mais imediata. O Ministério Público e os demais órgãos já mostraram que sabem agir quando querem. Falta agora olhar com a mesma energia para quem está no chão da cidade, sem voz, sem abrigo e sem esperança. Porque política pública que não alcança o ser humano mais vulnerável pode até ser bonita no papel, mas na prática continua incompleta.




