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Entre drones, biografias e cotoveladas, começou o campeonato eleitoral da televisão

A propaganda eleitoral entrou no ar na sexta-feira e Sergipe voltou a conhecer aquele universo encantado onde toda estrada é lisinha, hospital não tem fila, escola reluz e político anda no meio do povo sem segurança, sem calor e sem suar a camisa. Sexta-feira foi dia de governador, senador e deputado estadual; sábado apareceram os candidatos a presidente e deputado federal; domingo a televisão descansou, provavelmente para o eleitor recuperar a pressão; segunda os estaduais voltaram ao palco; e hoje os federais continuam a romaria atrás de voto. Em poucos programas, já apareceu de tudo: superprodução governista, candidato brigando com o cronômetro, deputado exibindo currículo, jingle procurando um ouvido desocupado e figurante chegando em casa para jurar à família que quase virou protagonista. A televisão ainda não decidiu a eleição, mas já mostrou quem tem história, quem possui dinheiro para contar uma história e quem alugou quinze segundos apenas para provar que está vivo.

Valmir de Francisquinho apresentou a narrativa mais humana e emocional dessa largada. Com pouco mais de um minuto, falou de origem, trabalho, educação, fé, família e superação, usando até o problema de saúde como demonstração de resistência. Enquanto alguns candidatos parecem ter nascido dentro de um gabinete refrigerado, Valmir procurou mostrar que conheceu primeiro o suor e somente depois o poder. Sua propaganda não possui o orçamento cinematográfico do governo, mas tem uma matéria-prima que produtora nenhuma fabrica em estúdio: identidade popular. O perigo é querer colocar Itabaiana, os 75 municípios, a família, a infância, a fé, a saúde e o futuro de Sergipe dentro de sessenta segundos. Aí nem propaganda eleitoral, só comprimindo o vídeo em arquivo ZIP. Valmir funciona melhor quando olha para a câmera, fala como Valmir e conta uma história de cada vez. Se conservar essa naturalidade, poderá fazer um minuto render mais do que quatro minutos de drone, locução de trovão e felicidade criada no computador.

Fábio Mitidieri venceu tecnicamente a estreia. Tem tempo, estrutura, acervo, máquina e uma produção tão bem iluminada que até os problemas de Sergipe devem ter recebido ordem para sair do enquadramento e a água chegou nas torneiras. São mais de quatro minutos para mostrar obras, reunir depoimentos, receber o apoio de Lula, sorrir em câmera lenta e apresentar um Estado onde até buraco parece atração turística. A peça é organizada, bonita e profissional, mas enfrenta o velho risco de toda propaganda de quem já governa: transformar campanha eleitoral em comercial institucional com trilha de margarina. Fábio apresentou o governador, mas ainda precisa apresentar o candidato aos próximos quatro anos. O eleitor já viu o retrovisor; agora quer saber para onde o carro vai. Televisão consegue embelezar ponte, escola e rodovia, mas não opera milagre em fila hospitalar, reclamação popular nem promessa esperando inauguração desde o último comício.

Na disputa pelo Senado, André Moura entrou preparado, com ritmo, clareza e domínio da linguagem eleitoral. Não apareceu como turista procurando a entrada do Congresso, mas como alguém que conhece Brasília, sabe onde ficam as portas e, principalmente, quem guarda as chaves. Sua propaganda apresenta experiência, articulação e capacidade de transformar atuação política em mensagem compreensível, sem obrigar o eleitor a consultar um dicionário depois do programa. Já Laércio Oliveira, mesmo sem ser candidato nesta eleição, apareceu no programa de Fábio Mitidieri quase como fiador do governo, falando de emprego, indústria, gás e desenvolvimento. O problema é que a bússola eleitoral de Laércio parece aquelas rotatórias de Aracaju: o cidadão entra por Fábio, passa por Flávio Bolsonaro, faz o retorno em Rodrigo Valadares e desembarca em Edvaldo Nogueira. É o governista que vota na oposição presidencial, apoia um candidato oposicionista ao Senado e completa a chapa com um aliado do governador. Laércio não montou apenas uma aliança; montou um prato-feito eleitoral com ingredientes de quatro cozinhas diferentes. No programa de Fábio, aparece como cabo eleitoral do governador; fora da televisão, ajuda a levantar o palanque de Flávio e Rodrigo e ainda reserva a segunda vaga para Edvaldo. É o famoso “governo de dia, oposição à noite e composição no intervalo”. André Moura oferece ao eleitor uma linha política fácil de acompanhar; Laércio oferece um itinerário tão misturado que, para entender o voto completo, o sergipano precisa de GPS, bússola e passagem integrada.

Eduardo Amorim também acertou ao recorrer à memória da criação do Hospital João Alves Filho, ligando sua biografia de médico a um serviço público concreto. É uma estratégia inteligente porque transforma currículo em imagem reconhecida pelo sergipano. Alessandro Vieira manteve a campanha limpa, organizada e tecnicamente correta, mas ainda enfrenta o problema de parecer candidato defendendo tese diante de uma banca examinadora: currículo de sobra, gravata alinhada e povo precisando aparecer mais. Alessandro fala como quem entrega relatório; o eleitor, porém, quer sentir que foi convidado para a conversa. Campanha eleitoral não é concurso para procurador nem seminário com certificado no final. Competência conta muito, mas política também exige calor humano, poeira na sandália e a habilidade de explicar uma proposta sem parecer que haverá prova na segunda-feira.

Rodrigo Valadares, por sua vez, escolheu novamente o confronto como combustível. Parece ter entrado no estúdio com um fósforo numa mão, um megafone na outra e uma lista de adversários no bolso. Sua estratégia transforma cada aparição numa batalha ideológica e toda divergência numa disputa pelo inventário da direita brasileira. Isso produz barulho, compartilhamento e manchete, mas também pode cansar. Enquanto André Moura prepara propaganda para conquistar eleitor, Rodrigo frequentemente parece gravar uma resposta para uma briga que ainda nem começou. No balanço inicial, Fábio venceu na produção, Valmir venceu na emoção, André venceu no preparo, Laércio fortaleceu a narrativa do desenvolvimento, Eduardo acionou a memória do serviço prestado, Alessandro ganhou na organização e Rodrigo levou, com folga, a taça da confusão. O horário eleitoral mal começou, mas já deixou uma lição: tempo de televisão ajuda, dinheiro melhora a fotografia e drone deixa tudo bonito. Milagre, porém, nenhum marqueteiro faz. Quando falta história, quatro minutos duram mais que fila de repartição; quando existe verdade, sessenta segundos deixam marca.

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