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Entre o biquíni e a cueca: Freud ri, o Brasil pira

Quando prefeita dança e prefeito posa, o país enlouquece e mostra que o inconsciente coletivo ainda veste terno e julga minissaia.

Deixe eu me apresentar, antes que alguém me classifique como “influencer de terceira idade”: sou mulher de 57 anos, avó, mãe de três filhos (todos crescidos e casados, graças a Deus), separada e absolutamente em paz com o espelho e com a solidão. Já vi o Brasil passar por Collor, por Dilma, por Bolsonaro, por Lula (três vezes!) e, honestamente, nada mais me espanta, nem escândalos de cueca, nem escândalos de bilhões.
Sou, digamos, uma sobrevivente da moral alheia. E confesso: depois de tantos anos escrevendo sobre moda, comportamento e cultura, aprendi que nada revela mais um país do que o que ele tenta esconder.

Pois o Brasil, esse país tropical, sensual e ao mesmo tempo hipócrita, ficou estarrecido porque dois prefeitos resolveram, cada um à sua maneira, existir de forma sincera. Uma dançou. O outro posou. Pronto. Bastou para revirar as vísceras do moralismo nacional.

De um lado, a prefeita de Marituba/PA, Patrícia Alencar: mulher forte, nordestina, batalhadora, que gravou um vídeo dançando forró de biquíni, num perfil privado, repito, privado e teve o vídeo vazado por um traidor digital. De outro, o prefeito de Canhoba/SE, Chrystophe Divino, que resolveu comemorar seus 40 anos com um ensaio fotográfico de cueca (daquelas que nem Calvin Klein assinaria com tanta coragem). Dois episódios banais, dois corpos humanos. Mas, para o tribunal da internet, foi o apocalipse erótico da república.

E o mais curioso: estamos falando de um país onde o cidadão já viu de tudo, cuecas com dinheiro do Mensalão, malas voando em jatinhos, pastores com barras de ouro na Bíblia, assessores escondendo euros na meia. E o que choca? Um corpo. O brasileiro perdoa a corrupção, mas não perdoa uma coxa bronzeada.

Ah, meus caros, Freud explicaria. Afinal, o pai da psicanálise dizia que “aquilo que é reprimido, retorna como sintoma”. E o moralismo brasileiro é exatamente isso: sintoma coletivo de um desejo reprimido. O país que exibe corpos em cada esquina do carnaval é o mesmo que se escandaliza com um biquíni de prefeita. A mesma gente que ri dos memes do prefeito de cueca é a que passa o dia sonhando com uma selfie de academia. É o recalque, minha gente, travestido de opinião política.

A psicanálise chama isso de recalque projetivo, ou, na linguagem da esquina, “falar mal porque queria fazer igual”. Patrícia dançou de biquíni e virou símbolo de indecência. Chrystophe posou de cueca e virou meme. Mas quantas dessas almas puritanas não fariam igual se tivessem um tanquinho aceitável ou uma autoestima em dia? O julgamento moral é, quase sempre, um espelho torto onde refletimos o que não temos coragem de ser.

E há outro detalhe que Freud também amaria observar: a diferença de gênero na histeria coletiva. Quando uma mulher mostra o corpo, é “vulgar”. Quando um homem mostra, é “ousado”. A prefeita virou exemplo de “falta de decoro”, o prefeito virou “engraçado”. É o velho patriarcado travestido de comentário espirituoso.

E olha que o cenário é o sertão sergipano e o interior paraense, terras de cultura rica, de fé e de trabalho, mas ainda regidas por uma moral de alpendre, onde o que as pessoas fazem de portas fechadas pode ser tudo, desde que ninguém veja.

Freud chamaria isso de “superego coletivo”: aquela voz moral interna que dita o que é certo e errado, mesmo quando ninguém pediu. Só que, no Brasil, esse superego é um senhor de bigode sentado numa cadeira de bar, tomando café e dizendo: “isso é coisa feia, minha filha”. É ele que se incomoda com o biquíni da prefeita, mas não se abala com o desvio de verba do posto de saúde.

E aí está a grande ironia: o país que se indigna com o decote é o mesmo que ri de ministro enrolado em propina. O escândalo do corpo é sempre mais fácil de digerir que o escândalo da ética. Se Patrícia e Chrystophe tivessem desviado verba da merenda, talvez até ganhassem documentário. Mas como só dançaram e posaram, viraram alvo de chacota.

Eu, que sou psicóloga de gabinete, advogada de fórum e jornalista de redação, garanto: se isso tivesse acontecido em Paris, o prefeito sairia em editorial da Vogue Homme como símbolo de autoconfiança; se fosse em Nova York, a prefeita estaria na capa da Vanity Fair com o título “O corpo livre da política”. Mas aqui, meu caro leitor, onde o moralismo ainda toma café com a fofoca, tudo vira piada de WhatsApp e manchete de esquina.

Mas há beleza nesse caos. Porque, sem querer, esses dois prefeitos nos lembraram que a alegria é ato político. Que sorrir, dançar e se expor, num país onde tudo é vigilância e ódio, é também resistência.
Enquanto metade da internet os crucifica, a outra metade ri, e, no fundo, essa risada já é libertação.

Agora, vamos falar sério: se é pra cobrar decoro, que seja nas contas públicas. Se é pra exigir pudor, que seja nos gabinetes. Porque o biquíni e a cueca não tiram dinheiro do povo: a corrupção, sim.
A nudez da alma é bem mais perigosa que a nudez da pele.

Patrícia foi vítima de misoginia e violação de privacidade. Chrystophe foi vítima da ironia fácil, do riso nervoso que o machismo disfarça. E ambos foram vítimas do que Freud chamaria de “mal-estar na civilização”: esse desconforto social com a liberdade do outro.

A lição que fica e aqui falo como mulher, como avó, como alguém que já sobreviveu a amores, censuras e eleições é simples: ninguém governa melhor por esconder o corpo. Governa bem quem é honesto, quem entrega resultado, quem não se disfarça sob a roupa do moralismo. O resto é recalque freudiano misturado com inveja política.

Se a prefeita quis dançar, que dance. Se o prefeito quis posar, que pose. E que o povo, esse sim, continue de olho, mas nas planilhas, não nas curvas. Porque o Brasil já sobreviveu a cuecas cheias de dinheiro. Vai sobreviver, tranquilo, a uma cueca cheia de autoestima. E olhe que eles ficaram “gatosos”! Beijos da Bia…

Respostas de 2

  1. Excelente artigo gostei, falou tudo e digo mais se pousar não é feio, feio é a visão dos cegos moralistas disfarçada em miopia.

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