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Entre o celular na mão e a lei no papel, quem está educando nossos filhos em Sergipe

Sergipe precisa acordar para um tema que não faz barulho, mas está dentro de casa, no quarto, na palma da mão dos nossos filhos. O chamado ECA Digital chegou com discurso bonito, com promessa de proteção e com regras que tentam organizar esse faroeste virtual onde criança navega sem mapa e sem bússola. Só que existe um detalhe que ninguém está dizendo com a devida firmeza: lei nenhuma substitui pai e mãe atentos. E aqui mora o problema real.

A legislação acerta quando fala em educação digital e autonomia progressiva, termos técnicos que significam ensinar o menino e a menina a não cair em qualquer armadilha que aparece na tela. Mas isso não se faz só com decreto, se faz dentro de casa e dentro da escola. A própria lei reconhece que precisa de articulação com políticas educacionais e formação de professores, ou seja, depende de gente de verdade fazendo acontecer, não apenas de papel assinado em Brasília.

Ao mesmo tempo, a lei tenta impor limites às plataformas, exigir verificação de idade, reduzir mecanismos como rolagem infinita e ampliar controle parental. Tudo isso é necessário, mas ainda insuficiente diante de um ambiente digital que evolui mais rápido do que qualquer norma jurídica consegue acompanhar. O Estado já tem dificuldade de fazer valer regras no mundo físico, imagine no digital, onde o anonimato e a velocidade tornam qualquer fiscalização uma corrida perdida antes da largada.

E é aqui que entra um ponto sensível e pouco discutido: o risco de excesso. Ao ampliar poderes de órgãos administrativos para decidir sobre conteúdos e impor sanções pesadas, o sistema flerta com a censura disfarçada de proteção. Em termos jurídicos, isso toca diretamente em direitos fundamentais, especialmente a liberdade de expressão, cuja análise deveria ser, por princípio, reservada ao Poder Judiciário. Quando se antecipa a remoção de conteúdo sem decisão judicial, o risco de erro deixa de ser exceção e passa a ser regra.

Enquanto isso, nossos jovens continuam expostos a conteúdos inadequados, vícios digitais e manipulações que exploram sua vulnerabilidade cognitiva. A ciência já demonstra impactos concretos na saúde mental e no desenvolvimento, e ainda assim há uma negligência silenciosa dentro das famílias. Muitos pais entregaram o celular como se fosse babá, escola e entretenimento ao mesmo tempo, sem perceber que também estão terceirizando a formação dos próprios filhos para algoritmos que não têm compromisso algum com valores, limites ou responsabilidade.

No fim das contas, Sergipe precisa entender que o ECA Digital é um instrumento, não uma solução. A proteção real começa com presença, diálogo e limite. Lei ajuda, escola orienta, mas quem educa é pai e mãe. Se isso não for compreendido agora, não vai ser decreto nenhum que vai evitar que a próxima geração cresça mais conectada, porém menos preparada para lidar com o próprio mundo.

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