E eu confesso uma coisa a vocês com muita franqueza. Eu estou preocupada. Não é uma preocupação moralista, nem um julgamento de quem ama quem. É uma inquietação de jornalista e psicóloga que conversa todos os dias com jovens, principalmente mulheres. Em rodas de conversa, em universidades, em redes sociais, o relato tem sido cada vez mais parecido. Meninas dizendo que não conseguem mais confiar em homens. Meninos dizendo que não sabem mais como se aproximar de mulheres. E os dois lados se recolhendo para dentro de bolhas emocionais que parecem cada vez mais fechadas.
Vou dar um exemplo real de conversa que ouvi recentemente em um encontro com universitárias. Uma jovem disse algo que ficou ecoando na minha cabeça. Ela contou que tentou namorar três rapazes, mas que todos estavam emocionalmente ausentes, presos ao celular, irritados ou inseguros. Depois de um tempo, ela começou a se aproximar de uma amiga que a escutava, acolhia, abraçava e entendia suas dores. E então ela disse uma frase muito simples. Com mulher é mais fácil conversar. Aquela frase não era sobre sexualidade. Era sobre afeto. Era sobre carência emocional.
E do outro lado, conversando com meninos, a história também aparece cheia de feridas. Muitos dizem que não sabem mais como chegar em uma menina sem serem ridicularizados nas redes. Outros passaram a viver em comunidades digitais onde só convivem com homens, consumindo conteúdo agressivo ou ressentido sobre mulheres. Alguns simplesmente desistiram de tentar. E quando isso acontece, algo muito sério começa a surgir. Grupos fechados. Bolhas emocionais. Meninas só conversando com meninas. Meninos só conversando com meninos. Cada grupo acreditando que o outro é impossível de entender.
Agora acrescente a esse cenário um ingrediente que está mudando a mente humana. A vida digital. Jovens passam cinco, seis, sete horas por dia olhando para o celular. Conversam com inteligência artificial, desabafam com aplicativos, criam identidades nas redes sociais que muitas vezes não têm nada a ver com a vida real. O cérebro humano começa a viver dentro de uma espécie de quarto emocional fechado. É uma geração que conversa o tempo todo, mas muitas vezes só consigo mesma.
Esse fenômeno não é brasileiro. Ele está sendo debatido em universidades da Europa, nos Estados Unidos e em pesquisas de comportamento no Japão e na Coreia do Sul. Países inteiros estão percebendo um distanciamento crescente entre homens e mulheres jovens. Menos relacionamentos, mais solidão, mais ansiedade e uma confusão enorme sobre identidade, pertencimento e intimidade. O Brasil apenas começou a sentir essa onda, mas ela já chegou com força nas escolas, nas faculdades e nas redes sociais.
E no meio disso tudo aparece a música da Ana Carolina quase como uma ironia bonita sobre a complexidade feminina. Quando ela canta “eu gosto de mulher, eu gosto de mulher”, ela não está fazendo um tratado sociológico. Está celebrando a intensidade da mulher. “Mulher de qualquer jeito, ninguém sabe o que ela tem no peito”. E talvez seja justamente isso que esteja faltando nessa geração. Menos rótulos e mais compreensão da complexidade humana.
Eu não estou aqui para dizer quem deve amar quem. O amor sempre foi múltiplo e continuará sendo. Mas eu quero provocar uma pergunta para vocês que estão lendo isso agora. O que acontece com uma sociedade quando homens e mulheres começam a ter medo uns dos outros? Quando meninas buscam abrigo apenas entre meninas e meninos se escondem em comunidades masculinas fechadas? O ser humano nunca evoluiu em bolhas emocionais. Sempre evoluímos no encontro.
Talvez a discussão mais importante da nossa geração não seja tecnologia, política, guerras ou ideologia. Talvez seja algo muito mais simples e muito mais difícil ao mesmo tempo. Como reconstruir a confiança emocional entre homens e mulheres em um mundo onde todo mundo está conectado, mas cada vez mais sozinho. Porque no fundo, antes de qualquer identidade ou rótulo, todo ser humano continua procurando exatamente a mesma coisa. Alguém que o escute de verdade. Falem aqui o que vocês acham.




