Meu amigo, o ex-deputado João Fontes, puxou da Bíblia uma comparação de fazer Brasília engasgar com o café: a Sagrada Família fugiu para o Egito diante da perseguição de Herodes. Flávio Bolsonaro, com Fernanda e as filhas, buscou abrigo nos Estados Unidos. Calma, leitor! Ninguém está canonizando Flávio nem transformando Miami em Belém. João Fontes, implicitamente, chamou Alexandre de Moraes de “Herodes brasileiro”, uma metáfora política, não um julgamento histórico. Mas a provocação fica: quando um pai teme pela liberdade e pela família, precisa esperar a porta da cadeia bater para procurar segurança?
A viagem parece roteiro de cinema: derrota eleitoral, cautelar dos passaportes, Argentina, escala no Equador e chegada a Miami. Faltou apenas o locutor gritar: “No próximo capítulo!” A questão, porém, não é novela. Flávio saiu apesar da ordem judicial que restringia a viagem, e isso tem consequências jurídicas. Também não havia prisão decretada, segundo as informações disponíveis. Moraes deve explicar a necessidade da cautelar com argumentos, não esperar aplausos da plateia. E o governo Lula precisa compreender: vencer eleição dá mandato, não controle remoto sobre a Justiça.
O governo Trump abriu caminho para a entrada da família nos Estados Unidos, gesto de acolhimento que merece reconhecimento pelo lado humano. Mas autorização migratória não é asilo político definitivo. Enquanto isso, imagine a resenha na feira de Aracaju: “O homem disputou o Planalto e terminou desembarcando na Flórida. É eleição ou conexão internacional?” A graça não apaga a preocupação: se uma parte expressiva do país desconfia da imparcialidade das instituições, responder apenas com solenidade e cara fechada é péssima política. Segurança jurídica se constrói com decisões fundamentadas, transparência e igualdade de tratamento.
E você, sergipano: Flávio fez bem ao priorizar a família ou agravou a situação ao desafiar a ordem? João Fontes exagerou ao convocar Herodes para o debate ou a metáfora acendeu uma luz sobre o abuso de poder? Eu valorizo a iniciativa de proteger os seus e o direito de questionar ministros sem medo. Mas nenhuma fé política substitui prova, e ninguém está acima da lei, nem senador nem magistrado. No fim, o problema não é saber quem interpreta Herodes em Brasília. É garantir que o brasileiro não precise comprar passagem internacional para sentir que tem direitos.




