No Dia dos Namorados, o clima era de reconciliação. Mas não estamos falando de casais apaixonados, e sim de uma reaproximação política que pode mudar os rumos do governo de Sergipe. André Moura, ex-deputado, ex-todo-poderoso de Brasília e atual secretário no governo do Rio de Janeiro, anunciou que vai largar o cargo carioca e deve desembarcar, em breve, com malas, verbas e pretensões no Palácio dos Despachos.
Se fosse novela, o capítulo se chamaria “O Retorno do Homem de Ferro”. Mas como é política sergipana, o título mais adequado seria “A Volta do Supersecretário e o Enigma dos Bastidores”. E o enredo, meu amigo, é digno de deixar qualquer aliado de Fábio Mitidieri com taquicardia.
Nos últimos dias, vimos FM e AM em perfeita sintonia, pelo menos na aparência. Trocaram afagos, sorrisos e promessas públicas como quem descobre um novo hit nas rádios. Uma lua de mel política inesperada, depois de um passado recente recheado de chiados, interferências familiares e até discursos com ameaça de rompimento. Mas como diria qualquer analista que acompanha essa frequência há anos: nada permanece fora do ar por muito tempo quando a música toca com cargo, estrutura e orçamento no refrão. O problema é que quando FM (Fábio Mitidieri) e AM (André Moura) se aproximam demais no mesmo dial, o risco de ruído na governabilidade aumenta e o sinal, que parecia claro, pode acabar virando estática.
A pergunta que ecoa pelos corredores do poder e já começa a tirar o sono de aliados e articuladores, é direta, incômoda e potencialmente explosiva: quem, de fato, vai mandar no governo de Sergipe daqui pra frente? Porque quando dois pesos-pesados dividem o mesmo ringue administrativo, alguém sempre sai com mais espaço no palácio… e outro com menos cadeira no jogo.
Porque, sejamos francos: André Moura não está voltando para bater ponto. Volta com roteiro pronto, articulação de bastidor afiada, influência em Brasília ainda pulsante e a fome política de quem passou tempo demais longe dos holofotes sergipanos. Ninguém em sã consciência acredita que ele largaria um cargo estratégico no Rio de Janeiro, com trânsito livre entre gabinetes de alto escalão, para vestir um crachá decorativo em Aracaju. Se ele voltou, é porque quer palco, poder e protagonismo.
Aliás, o “cargo” de André ainda é tratado como segredo de bastidor, mas, convenhamos, o roteiro já está escrito nas entrelinhas. Fala-se na Secretaria de Representação em Brasília, uma espécie de trampolim institucional para verbas federais e articulações de alto nível. Só que, na prática, André já comanda, nos bastidores, um bloco inteiro do governo, com influência direta sobre estruturas como Agricultura, Endagro, Cohidro e até a Secretaria do Trabalho, tudo isso sem mandato, sem cargo oficial, apenas na base da costura política e da velha força gravitacional. E esse avanço silencioso não tem passado despercebido pelos aliados de Fábio que lutaram com ele nas últimas eleições em Aracaju, pois assistem de camarote e com desconforto crescente à ampliação do império “MOURISTA” dentro do Palácio. Se isso é o que André já tem sem nomeação formal, imagine quando (e se) o cargo vier com caneta e crachá. Quantas portas mais se abrirão e quantos aliados ficarão do lado de fora?
O problema é que, à medida que o espaço de André se expande dentro do governo, o desconforto também se alastra entre os aliados de primeira hora de Fábio Mitidieri, aqueles que enfrentaram a campanha no fio da navalha, sem estrutura, sem certeza, mas com lealdade. Agora, veem o novo “inquilino” não só entrando pela porta da frente, como ocupando os principais cômodos do Palácio sem pedir licença. Enquanto muitos seguem na fila por uma diretoria ou cargo simbólico, André já circula com status de coprotagonista e isso tem gerado silêncio incômodo, ranger de dentes e muita reunião a portas fechadas.
E a oposição? Já começa a se movimentar como quem fareja sangue na água. Sabem que André Moura não é um personagem neutro, carrega bagagem, polêmicas e uma capacidade inegável de polarizar ambientes. Onde ele entra, o tabuleiro muda, e os adversários já perceberam isso. Depois de meses tateando no escuro, a chegada de André pode ser o empurrão que faltava para reorganizar o discurso oposicionista. Um alvo novo, cheio de passado, com poder crescente e sem mandato, o cenário perfeito para críticas indiretas a Fábio Mitidieri, sem precisar enfrentá-lo de frente. A guerra narrativa está armada, e o “supersecretário” pode virar, muito rapidamente, o elo vulnerável dessa nova engrenagem de poder.
Pra piorar, nem todo o desgaste vem de fora: esta semana, alguns aliados históricos de André já decidiram se afastar, acusando-o de descumprir acordos, mesmo à distância, lá do Rio. Agora, mais perto do núcleo do poder sergipano, o ruído promete ser ainda mais alto, e o risco de rachaduras internas aumenta. Afinal, manter a base coesa exige mais que articulação: exige confiança e essa, ao que parece, já começou a se desgastar.
O problema para Fábio Mitidieri é claro: ele governa com personalidade, não é dado a imposições, e não costuma dividir holofotes. A entrada de André no núcleo duro do governo pode ser vista como sinal de força, ou de fraqueza, dependendo de quem lê. Um governo com dois comandos sempre termina com um comandante de verdade e um ex-amigo político. Basta lembrar quantas alianças pareciam eternas até que uma eleição cruzasse o caminho.
A vinda de André Moura para Sergipe pode, sim, ser benéfica. Pode abrir portas em Brasília, atrair recursos, dar mais musculatura política ao governo. Mas também pode criar ruídos internos, atritos de bastidor e gerar um efeito colateral que já está sendo sentido: o desconforto dos aliados históricos de Fábio, que se veem cada vez mais longe do centro do tabuleiro.
André está voltando para o jogo e não vem pra lateral, vem pra disputar o centro do campo. Mas o gramado já tem dono, técnico e torcida organizada. E embora o juiz oficial seja o povo, quem está definindo o placar, seja com gols ou autogols, são os próprios jogadores do time governista. A entrada de um novo camisa 10 pode empolgar parte da torcida, mas também desestabiliza o vestiário. E em política, como no futebol, não basta ter habilidade: é preciso saber jogar junto… ou acaba todo mundo perdendo o campeonato antes da final.
A pergunta que ecoa, às vezes em sussurros nos corredores da Alese, às vezes em memes nos grupos de WhatsApp, é tão incômoda quanto inevitável: quem vai dar as cartas, de fato, no governo de Sergipe? Fábio ou André? Ou estaremos diante de uma experiência inédita: um governo bicéfalo, com um discurso unificado na superfície, mas com duas mãos disputando a mesma caneta nos bastidores? Se for esse o caso, preparem-se: quando dois comandam ao mesmo tempo, geralmente um acaba saindo pela porta dos fundos e o outro, com um governo cheio de remendos.
Resta agora ao povo e aos aliados atentos observar os próximos lances. Mas uma coisa já está clara como o sol no mirante da colina do Palácio: a volta de André mexeu o tabuleiro, reconfigurou peças e embaralhou estratégias. E no xadrez da política sergipana, quando um cavalo começa a se mover demais, ou prepara o xeque-mate… ou acaba tropeçando nos próprios cascos e derrubando o rei sem querer.




