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Generais batem à porta de Lula e o silêncio dos quartéis começa a fazer barulho

Durante muito tempo os quartéis brasileiros adotaram uma estratégia que faria inveja a qualquer monge tibetano. Silêncio absoluto. O país fervendo, decisões monocráticas pipocando, inquéritos sem fim e militares sendo investigados ou presos, enquanto generais praticavam uma espécie de meditação institucional. Mas nos bastidores de Brasília corre uma informação curiosa: chefes das Forças Armadas teriam procurado o presidente Lula para reclamar do que consideram um excesso de poder do Supremo Tribunal Federal. Traduzindo do idioma militar para o português claro: a paciência da caserna começou a coçar.

A conversa teria sido direta. O julgamento aconteceu, o STF condenou quem quis condenar e os militares ficaram quietos, disciplinados, assistindo tudo da arquibancada institucional. Só que dentro dos quartéis começa a surgir uma pergunta simples e perigosa ao mesmo tempo. Até onde vai essa história. Porque silêncio militar pode ser disciplina, mas também pode ser aquele silêncio de quem está contando até dez antes de falar.

E a fila de oficiais envolvidos nas investigações não é pequena. Entre os nomes mais conhecidos estão o general Augusto Heleno, o general Walter Braga Netto e o general Paulo Sérgio Nogueira, todos com décadas de carreira e formados na Academia Militar das Agulhas Negras. Para quem conhece o ambiente militar, isso tem um peso simbólico enorme. Na AMAN o cadete passa quatro anos ouvindo discursos sobre honra, hierarquia e defesa da pátria. De repente alguns desses mesmos oficiais se veem no centro de investigações criminais conduzidas pelo Supremo.

O caso do general Heleno virou quase uma ironia de caserna. Durante anos ele foi comandante da AMAN e formou gerações de oficiais. Era literalmente o professor da tropa. Quando acabou preso por ordem do STF, muita gente dentro da instituição comentou com humor amargo que o famoso lema do Exército, braço forte e mão amiga, parecia ter tirado férias. Nem braço apareceu, nem mão amiga.

A situação respingou também na Polícia Militar do Distrito Federal. Oficiais como o coronel Fábio Augusto Vieira e o coronel Jorge Eduardo Naime passaram a enfrentar decisões judiciais relacionadas aos acontecimentos de 8 de janeiro. No ambiente político de Brasília, alguns militares passaram a comentar, meio em tom de piada, meio em tom de preocupação, que a toga anda com mais poder operacional do que muito quartel.

Esse cenário ajuda a entender por que chefes militares teriam procurado Lula. Não se trata de ameaça institucional nem de rebeldia. O que circula nos bastidores é algo mais simples e mais desconfortável: incômodo. Generais querendo deixar claro ao presidente da República que, na visão deles, o Supremo vem avançando além do razoável no campo das investigações e das punições. Enquanto isso, episódios envolvendo o Banco Master, o escândalo do INSS e outras denúncias envolvendo ministros do STF parecem caminhar em ritmo bem mais lento, quase como se fossem discretamente empurrados para debaixo do tapete institucional. Em Brasília, quando a percepção de dois pesos e duas medidas começa a circular nos quartéis, o silêncio costuma durar cada vez menos.

O fato é que, dentro das Forças Armadas, começa a surgir um sentimento novo. Não é rebelião, nem ruptura. É desconforto. Oficiais mais jovens e mais antigos observam a sequência de investigações e decisões judiciais e começam a discutir o assunto nas conversas de corredor dos quartéis. E quando um assunto começa a circular nos corredores militares, normalmente é porque o silêncio institucional já não está tão confortável quanto antes.

No fim das contas, o Brasil assiste a uma situação curiosa. Os hinos militares continuam sendo cantados nos pátios das academias e Organizações Militares com peito estufado, falando de honra, coragem e defesa da pátria. Enquanto isso, na vida real, generais e coronéis aparecem nas manchetes dos tribunais. E quando a tropa começa a olhar para esse contraste e fazer perguntas em voz baixa, é sinal de que até o silêncio dos quartéis começa a fazer barulho.

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