Pais, avós e, principalmente, colegas de ofício: permitam que esta jornalista, que já rodou muito tapete vermelho, mas hoje se debruça sobre o tapete de brincar das netas, faça um editorial com o olhar de quem já viu muito milagre prometido por tecnologia e pouco milagre entregue na vida real. Tenho duas netas, uma com quatro anos e outra recém-chegada ao mundo, e, honestamente, passo noites em claro me perguntando: será que estou entregando para elas um mundo mais inteligente ou apenas um mundo mais ágil em fabricar distrações embaladas em LED?
Não sou dada a nostalgia fácil. Não tenho saudade do tempo em que criança brincava com lata e barbante porque, convenhamos, isso nunca impediu ninguém de virar adulto estranho. Mas convenhamos, trocar a conversa de avó por um aplicativo que ensina a falar “mãe” em quinze idiomas pode ser avanço tecnológico, mas não é avanço civilizatório. A pergunta que me inquieta, e deveria inquietar cada responsável por uma criança, não é se as telas fazem mal, mas quem ganha e quem perde com essa infância ultraestimulada. As crianças? Ou a indústria que lucra com cada clique, cada crise de birra, cada “só mais um vídeo para o neném não chorar”?
É fascinante perceber como pais e mães, formados em mil teorias de parentalidade consciente, esquecem uma verdade básica da psicologia: criança aprende pelo afeto, pelo olhar, pelo toque e, principalmente, pela frustração. Sim, frustração! Palavra feia, mas indispensável para formar gente que aguenta ouvir “não” sem rasgar a própria alma. Já perceberam como basta tirar o tablet para que a pequena Maria Clara, antes um anjo, vire uma mistura de Hulk com Lady Gaga em turnê esgotada? Não, isso não é possessão, é dopamina em abstinência. E enquanto os pais se perguntam se o problema é a criança, a ciência diz: o problema é o ambiente. Tela demais ensina prazer instantâneo, desensibiliza para o tédio, intoxica o cérebro com recompensas baratas e dificulta a construção de laços que exigem tempo, conversa, repetição. Ou seja, tudo aquilo que não dá lucro para a Apple, mas forma caráter.
E cá entre nós, a cena do almoço em família virou um meme silencioso. Cada adulto com seu smartphone, cada criança com seu tablet, e todos juntos, porém sozinhos, como uma colônia de eremitas conectados. A ética digital virou coisa de palestra no TEDx. Na vida real, é o exemplo que pega: se você reclama do filho que não solta o celular, mas vive grudado no grupo da escola, parabéns, você está ensinando como se faz. Educação pelo exemplo, sempre foi assim. A diferença é que agora o exemplo tem notificação, vibra, pisca e vende dado para a Big Tech.
E antes que alguém argumente que “tela é inevitável”, aviso: inevitável é a passagem do tempo. O resto, dá para negociar. Comer sem celular, ler um livro junto, brincar de verdade, tudo isso é mais barato, mais trabalhoso e infinitamente mais eficiente para a saúde mental infantil do que qualquer aplicativo com nome em inglês e promessa de QI turbinado. Não estou dizendo para criar crianças à vela, mas para não terceirizar o afeto e o conflito para uma tela. A infância não é beta-tester de software, é oficina de humanidade.
Encerro com a inquietação de uma avó que ama tecnologia, mas não terceiriza o amor. Se queremos netos e filhos com autonomia, propósito e governo interior, como diria o sábio, precisamos voltar a governar a casa. E isso dá mais trabalho do que instalar controle parental, eu sei. Mas é a única saída para evitar uma geração de adultos órfãos de presença, mas filhos do algoritmo. Boa sorte para todos nós que a próxima notificação seja um chamado para o convívio e não mais uma senha de Wi-Fi.




