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Gestão Sérgio Reis: um ano de interrogações

O primeiro ano da gestão do prefeito Sérgio Reis termina em Lagarto com uma sensação desconfortável de déjà vu. Para uma cidade estratégica da região centro-sul de Sergipe, polo de serviços, saúde e educação, o que se viu não foi a promessa de virada administrativa, mas a reedição de práticas que o próprio município acreditava ter deixado no passado.

Lagarto sempre conviveu com a disputa histórica entre os grupos Bole Bole e Saramandaia. Durante décadas, essa rivalidade produziu um efeito colateral perverso: obras públicas viravam troféus políticos, interrompidas ou destruídas não por critérios técnicos, mas por identidade partidária. A fonte luminosa derrubada em gestões anteriores virou símbolo dessa lógica. O retorno do grupo Saramandaia ao poder, após oito anos, carregava a expectativa de maturidade institucional. Um ano depois, essa expectativa segue em aberto.

Ao deixar a Prefeitura, a ex-prefeita Hilda Ribeiro entregou quatro obras em andamento, com ordem de serviço assinada e execução iniciada: a barragem, a policlínica, a obra da Cachoeira do Saboeiro e a Escola Modelo. Passados doze meses de gestão Sérgio Reis, nenhuma delas foi retomada ou concluída. Não houve explicação clara, cronograma público ou justificativa técnica convincente. O que se vê são canteiros abandonados, estruturas se deteriorando e silêncio administrativo. Em política pública, obra parada não é pausa, é desperdício.

Esse padrão se soma a outro eixo de desgaste: a relação conflituosa da gestão com os concursados. Desde o início do mandato, o prefeito resistiu à convocação dos aprovados, mesmo com concurso homologado e Termo de Ajustamento de Conduta firmado. Em paralelo, multiplicaram-se contratações comissionadas e um plano de carreiras que, na prática, não trouxe ganhos reais aos servidores efetivos. A mensagem transmitida é clara: o mérito técnico ficou em segundo plano.

O episódio da entrevista ao Jornal da 102 agravou esse cenário. Ao tratar com ironia a aprovação de um vereador da oposição em concurso público, o prefeito reduziu um processo constitucionalmente baseado no mérito à ideia de “sorte”. A fala não é apenas infeliz. Ela ajuda a explicar, em termos políticos, a resistência às convocações e a banalização de um dos poucos instrumentos republicanos de acesso ao serviço público.

Como se não bastasse o desgaste administrativo, o primeiro ano da gestão foi marcado por turbulência jurídica de alto impacto. A sentença da 12ª Zona Eleitoral de Lagarto, proferida pelo juiz Eládio Pacheco Magalhães, cassando os diplomas de Sérgio Reis e da vice Suely Menezes e declarando ambos inelegíveis por oito anos, colocou a cidade novamente no centro da instabilidade institucional. A condenação por abuso de poder econômico e uso indevido dos meios de comunicação não foi episódica. Foi construída sobre um conjunto de condutas reiteradas, inclusive com descumprimento deliberado de ordens judiciais.

O efeito político é devastador. Um prefeito sob ameaça permanente de cassação paralisa a administração, fragiliza contratos, afugenta investimentos e transforma o planejamento público em exercício provisório. Lagarto não precisa de um gestor governando com um olho na caneta e outro no processo.

Houve, é verdade, tentativas de reposicionar a narrativa. A licitação de R$ 9 milhões para contratação de buffet, cancelada após repercussão negativa, foi classificada pelo próprio prefeito como “erro grotesco”. O problema não é o cancelamento em si, mas o fato de um processo dessa magnitude ter avançado sem o mínimo de filtro político e administrativo. Erros grotescos não são acidentes, são sintomas de desorganização interna.

Também é fato que a gestão anunciou investimentos relevantes com apoio do senador Rogério Carvalho, como os R$ 10 milhões para o rodoanel e recursos para saúde, agricultura e turismo. São anúncios importantes, sem dúvida. Mas investimento prometido não compensa gestão desorganizada. Recurso anunciado não substitui obra parada. E discurso desenvolvimentista não neutraliza insegurança jurídica.

O paradoxo de Lagarto em 2025 é esse: uma cidade com enorme potencial regional, recebendo anúncios de investimentos estruturantes, mas presa a uma administração que começou tropeçando nos próprios conflitos, reviveu práticas do passado e mergulhou em instabilidade institucional logo no primeiro ano.

A pergunta que se impõe não é ideológica, é prática. Sérgio Reis vai governar para a cidade ou para o grupo? Vai concluir obras herdadas ou insistir na lógica de apagar vestígios do adversário? Vai respeitar o concurso público como regra republicana ou tratá-lo como inconveniente político? 

Lagarto já pagou caro demais por disputas que sacrificam o interesse público. Uma cidade não se desenvolve com obras interrompidas, servidores desvalorizados e prefeitos acuados por decisões judiciais. Governar exige mais do que alianças e anúncios. Exige maturidade institucional, previsibilidade administrativa e respeito às regras do jogo democrático. O primeiro ano passou. A margem de erro diminuiu. Para Lagarto, o tempo da política menor precisa ficar no passado. O presente exige governo.

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