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Gilmar Mendes x Alessandro Vieira e Romeu Zema: quando a toga desce para a briga política


Primeiro veio a CPI do Crime Organizado. A comissão nasceu para investigar facções, milícias, lavagem de dinheiro e o submundo onde o crime veste terno italiano e entra pela porta da frente do sistema financeiro. O relator era o senador sergipano Alessandro Vieira, delegado de polícia, sujeito que costuma abrir relatório como quem abre inquérito: com documento, não com perfume de gabinete. No meio da apuração, surgiram conexões espinhosas envolvendo o caso Banco Master e nomes graúdos de Brasília, inclusive ministros do Supremo. A temperatura saiu do morno institucional e foi direto para a panela de pressão.

Aí Alessandro fez o que Brasília odeia quando o alvo usa toga: escreveu. E escreveu muito. O relatório propôs o indiciamento de Gilmar Mendes, Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e ainda do procurador-geral Paulo Gonet. Brasília fez aquela cara de quem ouviu a palavra “auditoria” no almoço de domingo. O relatório foi tratado como heresia institucional. O problema não era só o conteúdo; era a ousadia de lembrar que ministro também pode ser questionado. Em certos corredores da República, isso soa quase como crime hediondo. 

Gilmar Mendes reagiu como quem não aceita nem café frio, imagine relatório parlamentar. Acionou a PGR e chamou a peça de Alessandro de “teratológica”, acusando desvio de finalidade e um “rudimentar jogo de palavras” para tentar seu indevido indiciamento. Em tradução simultânea para o português de boteco: “isso aí é uma viagem”. E a entrevista ainda ganhou o tempero da ironia pesada, com insinuações de que o relatório parecia coisa escrita sob efeito de alucinógenos. Quando um ministro do STF troca a fundamentação seca pelo sarcasmo gourmet, a toga desce do plenário e senta no balcão da política. 

Alessandro respondeu sem pedir licença. Disse que Gilmar havia ultrapassado o campo jurídico e entrado no ataque pessoal. Classificou a postura como algo “no limite do ridículo” e afirmou que isso demonstrava medo de investigação. Foi além: cobrou explicações sobre voos de jatinho, contratos milionários e relações familiares em negócios que orbitam poder e influência. Em resumo, disse o que muitos cochicham no cafezinho e poucos falam olhando para a câmera. O recado foi simples: se ministro quer debate público, então debate público terá. 

No meio disso tudo entra Romeu Zema, outro nome que Gilmar resolveu tratar no modo ironia premium. O governador criticou excessos do Supremo e recebeu de volta aquela tradicional aula de superioridade aristocrática de Brasília, com sotaque de quem fala como se estivesse explicando latim para plebeu. Zema devolveu dizendo que o problema não era entender suas palavras, mas os brasileiros entenderem os atos da Suprema Corte. Tradução livre: o povo já entendeu demais e está gostando de menos.

É aí que mora o veneno institucional. Ministro do Supremo não é debatedor de podcast, nem comentarista de mesa redonda. Pode até ter razão jurídica, mas quando entra no ringue verbal com senador e ex-governador, deixa de parecer árbitro e passa a parecer jogador. E juiz que parece jogador perde o principal patrimônio que possui: a autoridade simbólica. Supremo não pode funcionar como camarote VIP dos intocáveis, onde todo mundo pode ser investigado, menos quem segura a chave do elevador.

O argumento de defesa sempre vem elegante: “ah, mas ministros também têm honra subjetiva”. Claro que têm. Todo cidadão tem. A diferença é que o cidadão comum procura advogado e entra com ação. Já quando um ministro reage, a população enxerga outra coisa: toga em causa própria. A impressão pública vira a de que quem julga também escolhe o cardápio do processo. E aí nasce a crise de confiança. Não é sobre ofensa; é sobre simetria. República não combina bem com castas.

No fim, Gilmar Mendes comprou briga com dois políticos de peso e talvez tenha dado a ambos exatamente o que eles precisavam: palco nacional. Alessandro Vieira virou símbolo de enfrentamento institucional. Romeu Zema ganhou vitrine fora de Minas. E o STF, que deveria parecer montanha, começou a parecer condomínio em assembleia de síndico nervoso. Suprema Corte forte não precisa de frase de efeito em entrevista de rádio. Precisa de silêncio técnico, sobriedade e respeito. Porque quando a toga começa a tirar onda, o problema já não é mais jurídico. É de credibilidade.

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