O pastor Heleno resolveu falar. E quando alguém como ele fala, o silêncio ao redor não é respeito, é cálculo. Heleno nunca foi desses que batem a porta ou quebram o púlpito. Sempre falou baixo, andou devagar e pisou como quem testa o chão antes de avançar. Mas, desta vez, decidiu fazer algo raro na política sergipana: disse em voz alta aquilo que todo mundo comenta em cochicho.
Heleno é um personagem curioso da política local. Já foi deputado estadual, deputado federal por duas vezes, prefeito de Canindé, depois experimentou o amargo cardápio da derrota no Senado e voltou a perder tentando a Câmara. Oito anos fora de mandato não são pouca coisa. Para alguns, é exílio. Para outros, é escola. Heleno escolheu a segunda opção.
Enquanto muitos somem quando perdem o mandato, ele fez o caminho inverso. Saiu do tapete vermelho da capital e foi para o sertão, para Nossa Senhora da Glória, sem abandonar Poço Redondo, onde nasceu. Lá, trocou plenário por microfone de rádio, discurso por atendimento direto, política de gabinete por política de porta aberta. Virou aquele tipo de liderança que não aparece em planilha de governo, mas aparece na memória do povo quando o problema aperta.
Sempre orbitando os Republicanos, Heleno manteve trânsito livre com Marcos Pereira, figura central do partido em Brasília. Dizem até que ele tem relação mais próxima com a legenda do que muitos parlamentares com mandato. Prova disso é sua capacidade de mover peças. Foi Heleno quem conduziu o partido que estava com o pastor Johnny, entregou a Gustinho Ribeiro e, depois, puxou a mesma sigla para o colo de Emília Corrêa. Pouca gente sem mandato faz isso. Menos ainda faz com naturalidade.
Mesmo fora do Congresso, Heleno é visto como um dos poucos nomes que teriam teto real para deputado federal dentro dos Republicanos. E talvez exatamente por isso sua fala recente tenha causado incômodo. Ele disse, com todas as letras, que é impossível competir em igualdade de condições com quem já tem mandato e acesso a algo em torno de 30 milhões em recursos. Não é bravata. É matemática. E matemática, diferente de discurso, não aceita narrativa.
Foi além. Disse que só entra numa disputa por uma sigla que não tenha ninguém buscando reeleição. Tradução simultânea: não vai disputar em partido de governo nem de oposição tradicional. Porque o mapa é cruel. No PSD há Catarina Feitosa e Fábio Reis tentando se manter. Nos Republicanos, tudo indica que Ícaro de Valmir, estará no jogo. No PP ou na federação com a União Brasil, aparecem Yandra Moura e Gustinho Ribeiro. No PT, João Daniel. É uma festa de incumbentes. E festa de incumbente costuma ter lista de convidados fechada.
Sobra, no papel, o PSB. Mas aí entra outro problema. No PSB já existe um candidato fortíssimo, Cláudio Mitidieri, primo do governador, com apoio explícito de secretarias, prefeitos e da máquina estadual. Entrar ali seria como disputar corrida de Fórmula 1 largando duas voltas atrás e sem pit stop.
É aí que a fala de Heleno revela algo maior. Não é só um desabafo pessoal. É um diagnóstico do sistema. O jogo está tão pesado para quem não tem mandato que a alternativa começa a parecer outra. O caminho feito por Capitão Samuel e Thiago de Joaldo na eleição passada aparece como manual. Ambos foram convidados por vários partidos, mas recusaram entrar em chapas dominadas por quem já tinha cadeira e cofre. Preferiram andar juntos, mesmo que isso custasse mais esforço e menos holofote.
Heleno, hoje, parece diante de uma bifurcação clássica. Ou tenta repetir essa engenharia difícil, montar um grupo novo, achar uma sigla sem donos e organizar uma chapa equilibrada. Ou faz algo ainda mais pragmático: desce para deputado estadual, onde seu capital político lhe garantiria uma eleição muito mais tranquila. Seus quase 28 mil votos da última disputa não são desprezíveis. Em Sergipe, isso é patrimônio.
Para isso, porém, seria preciso o que Heleno sempre soube fazer: montar time. Nove candidatos competitivos, uma legenda ajustada, uma engenharia política que não se improvisa. Se fosse para dar um conselho, talvez o mais óbvio fosse resgatar o pastor Johnny, articulador experiente, desses que sabem juntar gente antes de juntar voto. A chamada “chapa dos sonhos” não nasce sozinha.
No fundo, o que Heleno fez foi puxar a cortina. Mostrou que o sistema eleitoral virou um jogo de adultos com brinquedos caríssimos, onde quem chega sem mandato entra sabendo que a bola já está no pé do adversário. Se ele ficará no barco de federal ou mudará de convés rumo à Assembleia, ainda é cedo para cravar. Mas uma coisa ficou clara. Quando até um político cauteloso como Heleno resolve falar duro, é sinal de que o problema não é individual. É estrutural.




