Socorro completa doze meses sob a administração de Samuel Carvalho e, se houvesse boletim escolar para gestão pública, o prefeito já estaria em recuperação desde março. Não por falta de aviso, mas por excesso de improviso. A política local sempre foi descrita, meio em tom de piada, meio como diagnóstico clínico, como um lugar onde não existem eleitores, existem lideranças. Em Socorro, todo mundo forma opinião, todo mundo discorda, todo mundo acha que entende mais que o outro. Quando um ambiente assim cai nas mãos de alguém sem vocação administrativa, o resultado costuma ser previsível, ruidoso e caro.
Samuel entrou e segue governando como quem ainda disputa voto, sem compreender que a retórica termina no dia seguinte à eleição e que gestão exige método, técnica, rotina e capacidade mínima de diálogo. Um ano depois, Socorro segue sem certidões negativas. Não é detalhe burocrático, é o RG da incompetência administrativa. Município sem certidão é município travado, sem acesso a recursos, sem planejamento e sem credibilidade. É a prova documental de que o básico, o elementar, não está sendo feito.
Na sequência vem o vício crônico da gestão: emergência sobre emergência. Em Socorro, licitação virou peça de museu. Tudo é emergencial, sempre urgente, sempre inadiável e, curiosamente, sempre conveniente. Emergência, quando vira regra, deixa de ser exceção e passa a ser estratégia. Estratégia ruim, cara e perigosa, que abre espaço para erros, suspeitas e contratos mal explicados.
As promessas feitas por Samuel, tanto à população quanto às lideranças políticas que o elegeram com mais de 55 mil votos, ficaram no mesmo lugar onde ele costuma deixar as pessoas esperando: no vazio. O prefeito se especializou em entrar por uma porta, sumir pelos corredores e sair por outra, evitando contato com servidores, população e, pasmem, até aliados. Governar ignorando quem lhe deu sustentação política não é sinal de independência, é sinal de isolamento. E isolamento, em política, costuma ser prelúdio de queda.
Nada, porém, sintetiza melhor o descompasso administrativo do que o episódio do cemitério La Pace. Um contrato emergencial de cerca de cinco milhões de reais por ano com um cemitério privado ligado, direta ou indiretamente, ao secretário do próprio prefeito. Um secretário que integrava a sociedade, depois transferiu para o irmão, numa coreografia jurídica que não engana nem aluno do primeiro período de Direito. Tudo isso em um município que possui sete cemitérios públicos e que, com cerca de um milhão de reais, poderia reformar todos eles.
A justificativa oficial beira o deboche: ausência de licença ambiental. Como se cemitérios públicos no Brasil inteiro, do interior às capitais, parassem de funcionar por esse motivo. Se fosse assim, só o cemitério privado sobreviveria, o que, curiosamente, parece ter sido exatamente o roteiro escolhido. Faltou administração, faltou diálogo, faltou o gesto elementar de sentar com o Ministério Público, pedir prazo, ajustar condutas e manter os sepultamentos nos cemitérios da cidade, onde as famílias querem enterrar seus mortos, perto de seus entes queridos.
Para agravar ainda mais o cenário, os vereadores Panzuá e Charlys de Gel denunciaram uma obra realizada no cemitério, executada com estrutura da própria Prefeitura de Socorro, uso de carros-pipa e funcionários públicos. As imagens divulgadas nas redes sociais e os vídeos apresentados deixam claro que a intervenção partia de dentro do cemitério para fora, desmontando a versão de qualquer serviço externo ou emergencial. A estrada utilizada para acessar o local é privada, o que reforça que a obra não apenas ocorreu dentro do cemitério, como foi conduzida a partir de uma área privada, com recursos públicos. Trata-se de uma intervenção mal explicada, tecnicamente questionável e politicamente grave, empurrada para o colo de um Ministério Público que, até agora, responde com um silêncio constrangedor. Faz falta aquele MP mais ativo.
E como se não bastasse, existe ainda um contrato de quase dez milhões de reais que inclui manutenção de cemitérios, num município onde os cemitérios públicos estão fechados, sem plano, sem cronograma, sem qualquer anúncio de reforma. Manutenção de quê, exatamente? Do abandono?
É nesse contexto de improviso estrutural que explode a crise da educação. Socorro encerrou mais um capítulo constrangedor com professores deixando a Secretaria de Educação não por vitória, mas por exaustão institucional. A ocupação terminou porque o objeto da negociação simplesmente evaporou. O governo não negociou. Empurrou o problema para frente, redesenhou a lei e chamou isso de solução. Em política séria, isso se chama manobra. Em gestão responsável, isso se chama incompetência.
A mensagem enviada pelo secretário adjunto Altimar escancara a lógica da gestão. A prefeitura decidiu “refazer” o artigo 41-A para mudar a referência do piso salarial do magistério. Onde a lei federal é clara, piso nacional calculado sobre nível médio, 200 horas, letra A, agora Samuel Carvalho tenta criar uma realidade paralela: transformar o piso em referência de nível superior, 200 horas, ignorando frontalmente a legislação federal e os entendimentos consolidados do STF. Não é interpretação jurídica. É drible. Não é atualização administrativa. É retirada de direito.
O efeito prático é simples e cruel. O que deveria ser o mínimo legal vira um teto artificial. O piso deixa de ser piso. O salário do professor, que já não é alto, vira variável de conveniência política. Esse é o grande presente que a gestão Samuel Carvalho oferece à educação de Socorro no seu primeiro ano: insegurança, conflito e desvalorização profissional.
O simbolismo é ainda mais perverso quando se recorda das próprias palavras do prefeito. Ao nomear a esposa como secretária de Educação, Samuel disse estar entregando à cidade a coisa mais preciosa que possuía. Pois bem. A coisa mais preciosa que ele afirma ter dado à educação agora retira justamente dos professores aquilo que lhes é mais precioso: o salário, o piso, a dignidade. A conta não fecha nem moralmente, nem administrativamente, nem biblicamente.
E já que Samuel é pastor, convém recordar Provérbios 29:2, que diz que quando os justos governam, o povo se alegra, mas quando os maus governam, o povo geme. Não é teologia, é consequência prática. Um governante que não conhece a lei, ou finge não conhecer, faz seu povo gemer. Um governante que improvisa onde deveria planejar produz caos. Um governante que trata direito como obstáculo governa contra, não a favor.
O episódio da ocupação deixa claro que o diálogo nunca foi prioridade. Os professores entraram para abrir canal. Saíram porque perceberam que estavam falando com portas fechadas. O governo preferiu redesenhar a regra a enfrentar o debate, empurrar o conflito para a Câmara, para o Judiciário, para outras instâncias, como quem terceiriza a própria incapacidade de governar.
Nada disso é ponto fora da curva. É padrão. Um governo que coleciona emergências administrativas, promessas descumpridas e decisões erráticas agora resolve brincar de legislador para ajustar a lei à própria conveniência fiscal. Terno de gente grande não cabe menino. Administrar exige preparo, respeito à lei e noção de limite. Samuel ainda confunde púlpito com gabinete, vontade pessoal com norma jurídica, improviso com gestão.
Socorro é uma cidade onde todos observam, comentam e cobram. Aqui, erro não passa despercebido. O conflito com os professores não é apenas um problema da educação, é o retrato fiel de um governo que não sabe ouvir, não sabe negociar e não sabe administrar. Quando até quem ensina precisa ocupar prédio público para ser respeitado, o problema não está na sala de aula, está no gabinete. Este é o grande presente que Samuel Carvalho entrega à educação e aos professores de Socorro, o seu Natal administrativo: a retirada de direitos, a insegurança salarial e o desprezo institucional. A ocupação terminou. O desgaste não. E a fatura política, essa, chega sempre. Sem emergência que adie, sem artigo que maquie, sem discurso que esconda.




