Hoje começa oficialmente aquela temporada curiosa da democracia brasileira: além da novela das nove, além do telejornal que já parece série policial, agora temos também a estreia do “capítulo partidário” no horário nobre. Sim, os programas de propaganda partidária entram no ar entre 19h30 e 22h30, ocupando aquele espaço sagrado em que o brasileiro normalmente divide atenção entre o jantar, o controle remoto e a esperança de que o vilão finalmente seja desmascarado.
A vez inicial é do Partido da Social Democracia Brasileira e do Solidariedade, que abrem os trabalhos de 2026 com inserções estrategicamente posicionadas no horário nobre. Não é campanha eleitoral ainda, é propaganda partidária, aquela fase em que ninguém pede voto, mas todo mundo “apresenta ideias” com trilha sonora inspiradora e imagens cuidadosamente escolhidas de pessoas sorrindo em câmera lenta.
E o melhor, ou o mais democrático dependendo do humor do dia, é que a população é obrigada a ouvir. Não tem botão de pular anúncio. Não é streaming. É concessão pública. A televisão simplesmente para e diz: agora você vai escutar o partido explicar sua visão de Brasil. É quase um momento cívico involuntário, uma aula política em meio ao intervalo comercial do detergente e do plano de saúde.
Pelo menos há regras. A exibição segue a Resolução TSE nº 23.679 e a distribuição de tempo foi definida pela Portaria TSE nº 460. Tudo cronometrado, organizado, sem improviso. Cada segundo vale ouro. Cada frase é medida. Cada imagem é pensada para parecer espontânea, embora nada ali seja por acaso.
Então prepare o sofá. A temporada começou. Entre uma reviravolta da novela e uma notícia urgente no telejornal, entra o partido. Alguns vão assistir com atenção, outros vão reclamar, muitos vão resmungar, mas todos vão ouvir. Porque no Brasil, além do drama fictício e do drama real, temos também o drama político em horário nobre. E ele acaba de ganhar nova temporada.




