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Igor Mangueira, o artista que inventou o “Igorcentrismo” e transformou Aracaju em outro planeta

Igor Mangueira não é apenas um cantor sergipano. É um fenômeno atmosférico com violão, uma entidade boêmia que canta, abraça, improvisa e, ao encontrar três acordes disponíveis, suspende as leis da física e o sossego da mesa vizinha. Ele se define como “extra artista terrestre do planeta Aracaju”. Parece exagero apenas nos primeiros cinco minutos. Depois disso, o cidadão já acredita em vida extraterrestre e procura a nave estacionada perto do Mercado Municipal. Igor não interpreta personagem porque já acorda sendo espetáculo. Enquanto alguns artistas exigem luzes, fumaça, telão e camarim climatizado, ele precisa de uma cadeira, um violão, seis heinekens e duas pessoas olhando. Se chegar uma terceira, considera casa lotada, anuncia turnê internacional por Itabaiana e começa a negociar a cinebiografia grava em Tobias Barreto.

Sua música nasceu de uma mistura clandestina de forró, rock, MPB, tropicalismo, poesia, sátira e uma quantidade de atrevimento que jamais seria liberada pela Vigilância Sanitária. Igor chamou o resultado de punk-pós tropicalista, expressão que pode designar um movimento cultural, uma pane elétrica ou a mistura de Raul Seixas, Luiz Gonzaga e Rogério Skylab numa panela de barro. Como ainda era pouco, criou também o Igorcentrismo, doutrina segundo a qual o universo não gira ao redor do Sol, mas de Igor Mangueira cantando no Pastel Sol. Nessa filosofia, Aracaju é o centro do sistema solar, Sergipe é maior por dentro do que por fora e qualquer conversa de bar pode virar canção antes que o garçom traga a conta ou a água chegue à torneira do sergipano.

Em “Descobrindo Aracaju”, Igor transforma a capital numa excursão musical sem ônibus, guia turístico ou hora para voltar. Sobe a São Cristóvão, desce a Laranjeiras, passa pelo Mercado, pela feira, pela Sementeira, pela Orla, Aruana e Mosqueiro. Depois come arrumadinho no Industrial, feijoada no Sulista, vai ao Cotinguiba, ao Batistão, ao Calçadão da Treze e ainda arruma energia para atravessar Bugio, Grageru, Santos Dumont, Santo Antônio, Terra Dura, Bairro América, Luzia, Inácio Barbosa e Jardins. É praticamente o Google Maps com violão, fome e sede. No caminho, toma sorvete, come sushi, acarajé, lembra o Cacique, atravessa a Ponte do Imperador, olha a Barra dos Coqueiros, toma o café da avó e segue para o carnaval, o Forró Caju e a Vila do Forró. Se a música durasse mais três minutos, Igor passaria em Nossa Senhora do Socorro, Canindé e talvez do Oiapoque ao Chuí, pagaria um boleto em São Cristóvão com o cartão da amada Jumara e ainda voltaria a tempo de pedir outra heineken. Ele não canta apenas Aracaju: faz vistoria afetiva na cidade inteira.

Essa vocação para a irreverência também vem de casa. Igor é filho de Wellington Mangueira, advogado, professor e militante dos Direitos Humanos, e de Laurinha Marques. De um lado, herdou consciência política, coragem e gosto pelo debate; do outro, sensibilidade e a paciência necessária para sobreviver ao futuro fundador do Igorcentrismo. É pai de Hugo, também artista, irmão de Cizinha, juíza de Direito, e tio de Isadora, ligada à comunicação e encarregada de explicar à família por que o tio acredita que Aracaju seja um planeta. Wellington enfrentou os porões da ditadura. Igor enfrenta os palcos, os acordes e a possibilidade dramática de acabar a heineken antes do último refrão. Cada Mangueira trava a batalha histórica que o seu tempo oferece.

O habitat natural de Igor é a boemia aracajuana, especialmente o Pastel Sol. Ali, ele não realiza um simples show. Convoca uma assembleia musical extraordinária, sem edital, sem quórum e com todas as decisões aprovadas por aclamação etílica. Existe, porém, uma exigência técnica: entre uma música e outra, deve surgir uma heineken gelada. Não é luxo de camarim, mas combustível oficial do Igorcentrismo. O violão recebe afinação, Igor recebe cerveja e o público recebe filosofia musical. Se a garrafa demora, o intervalo cresce, começam as histórias e o show vira palestra sobre a origem do universo. O pastel chega crocante, a cerva chega gelada e a mesa vizinha, que só queria conversar, acaba promovida a coral.

O fã clube parece uma mistura de academia cultural, mesa de bar e conselho secreto da República: Gutemberg, Marquinhos, Huguinho, Alex (o Careca Lindo), Fausto, Allan Brisa Mar, Ivan Fontes Barbosa, Salvador Gonzales e outras personalidades cuja importância não pode ser revelada sem autorização judicial. Ninguém sabe se o grupo possui estatuto, sede ou tesoureiro. Provavelmente, as reuniões começam com música, avançam pela política sergipana, passam pelo sentido da vida e terminam numa CPI para descobrir quem pediu a última cerveja. Sob a doutrina do Igorcentrismo, todos são discípulos. Alguns ainda não admitem porque a carteirinha plastificada não ficou pronta.

Foi assim que Fausto e Duvinha entraram para a história da música romântica sergipana. Igor observou o casal, identificou amor, amizade, brincadeira e a dose de confusão necessária a toda relação que sobrevive ao controle remoto, à fatura do cartão e à escolha do restaurante. Então compôs “Fausto e Duvinha” e resumiu o casamento numa frase que nem a psicologia, a terapia de casal ou o Direito de Família conseguiriam melhorar: “Que amor, que horror, que bonitinho”. Em poucas palavras, entregou paixão, susto e ternura, o ciclo completo de qualquer união bem-sucedida. Depois chamou os dois de “casal maneiro” e “a linha e o linho”. A letra é tão completa que, reconhecida em cartório, pode servir como declaração de amor, renovação de votos e defesa prévia para as próximas discussões.

Igor ainda colocou Fausto e Duvinha ao lado de Eduardo e Mônica, Léo e Bia, Paula e Bebeto, Romeu e Julieta, John e Yoko, mas encerrou qualquer recurso ao decretar que “ninguém chega perto”.Shakespeare precisou de uma peça inteira, duas famílias inimigas e uma tragédia. Igor resolveu tudo em poucos acordes, sem veneno, sem duelo e com alguém pedindo outra heineken ao fundo. Esse é o seu talento: transformar gente de carne, osso, alegria e boleto em personagem extraordinário que  faz o planeta Aracaju não aparecer nos mapas convencionais. Começa no Pastel Sol, atravessa os bairros de “Descobrindo Aracaju” e termina onde houver um violão, alguns amigos e uma heineken esperando entre uma música e outra. A seguir, a entrevista com Igor Mangueira: o homem, o artista, o planeta e, naturalmente, o centro absoluto do Igorcentrismo.

ENTREVISTA COM IGOR MANGUEIRA, O EXTRATERRESTRE DA MÚSICA SERGIPANA

Entrevistar Igor Mangueira sozinho seria uma irresponsabilidade jornalística e, possivelmente, um risco para a saúde emocional do entrevistador. Igor não cabe numa pergunta, numa pauta nem no tempo regulamentar de qualquer programa: quando se começa a falar de sua música, ele já atravessou a boemia de Aracaju, pousou pela noite de Sergipe, fundou o Igorcentrismo e seguiu viagem para outra galáxia levando o violão. Por isso, convocamos uma verdadeira força tarefa afetiva formada pelos melhores amigos do artista, gente que conhece suas histórias, acompanhou seus palcos, ouviu suas teorias e sobreviveu às conversas que começam com três acordes e terminam discutindo o sentido da existência. Cada amigo trouxe uma pergunta nascida da convivência e da curiosidade de compreender quem é, afinal, esse extraterrestre da música sergipana. O resultado não é apenas uma entrevista, mas uma roda de amizade, memória e bom humor na qual Igor responde sobre sua trajetória, suas influências e as ideias que fazem dele um artista absolutamente diferente dos demais. Vejamos:

Alex, o Careca Lindo – Mangueirinha, o que significou para você tocar tantas vezes no Pastel Sol?

Igor Mangueira – Alex, meu Lex Lutor preferido, tocar no Pastel Sol nunca foi apenas cumprir uma agenda. Aquilo virou uma espécie de consulado do meu planeta em Aracaju. Eu chegava com o violão, Marquinhos preparava o pastel e o público trazia a sede, a fome e uma disposição enorme para participar do espetáculo, mesmo sem ter ensaiado. No Pastel Sol, eu não construí apenas público. Construí amizades, memórias e uma família boêmia que canta, ri, conversa alto e às vezes pede uma música que eu nunca toquei na vida. Ali aprendi que o artista não precisa ficar distante, protegido por um muro imaginário. Ele pode estar perto, conversar, ouvir histórias e transformar aquela energia em criação. O Pastel Sol foi palco, escola, laboratório e casa artística. Se um dia fizerem um museu sobre a minha trajetória, vão precisar colocar na entrada um violão, uma mesa de plástico, uma cerveja gelada e um pastel ainda estalando.

Ruperto – Confesse, o Igorcentrismo nasceu inspirado no rupertismo ou é uma filosofia ainda mais maluca?

Igor Mangueira – É uma instituição em funcionamento, um patrimônio afetivo que ainda fala, argumenta e provavelmente pede a palavra quando ninguém abriu a reunião. Talvez, o rupertismo veio primeiro e abriu a estrada. Eu apenas passei correndo por ela, sem habilitação filosófica, e fundei o Igorcentrismo que vai além: coloca Igor no centro, Aracaju ao redor, Sergipe girando em órbita e o restante da humanidade tentando entender o mapa. Mas reconheço publicamente sua influência. A diferença é que o rupertismo exige 78 anos de experiência. O Igorcentrismo precisa apenas de um violão, três acordes e absoluta falta de vergonha. Portanto, não lhe copiei. Fiz uma releitura pós tropicalista, que é a forma artística e elegante de confessar que peguei a ideia, balancei, botei música e devolvi mais maluca.

Ivan Fontes Barbosa – Você se tornou o Igor que todos esperavam ou preferiu ser exatamente o Igor que é?

Igor Mangueira – IFB aos 12 anos eu escrevia meu primeiro livro porque brincar normalmente nunca foi o meu forte. Enquanto outros meninos jogavam bola, eu provavelmente estava criando um universo, inventando personagens e tentando entender por que a realidade vinha tão mal escrita. Minha família enxergava aquela precocidade e imaginava um futuro grandioso. Talvez esperassem um escritor famoso, um intelectual de terno ou alguma personalidade importante que aparecesse na televisão falando sério. E eu me tornei o Igor Mangueira: compositor, cantor, escritor, cronista da cidade, frequentador de bar, criador de filosofias e extraterrestre credenciado pelo planeta Aracaju e pai de Hugo. Foi grandioso? Para mim, foi. Eu não me tornei exatamente aquilo que esperavam, mas também não traí aquele menino. Continuo curioso, inquieto e inventando mundos. A diferença é que agora escrevo livros, músicas e histórias na cabeça das pessoas. Prefiro ser o Igor que sou, com meus acertos, exageros, dúvidas e liberdades. O sucesso mais difícil não é virar aquilo que os outros imaginaram. É conseguir não abandonar a pessoa que você descobriu dentro de si.

Fabiano Loz – De onde vêm as referências que alimentam suas composições?

Igor Mangueira – Meu brother, minhas referências vêm de todos os lugares, principalmente dos lugares onde ninguém está procurando referência nenhuma. Vêm de Caetano, Gil, Raul Seixas, Rita Lee, Cazuza, Barão Vermelho, Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, do rock, do forró, da MPB, do tropicalismo e da música que toca numa mesa distante enquanto alguém conta uma história absurda. Também vêm do Mercado, da Atalaia, da Rua da Frente, dos bares, das amizades, dos amores que deram certo e, principalmente, dos que deram material para três discos. Eu componho observando a vida. Uma frase escutada na calçada pode virar refrão. Uma separação pode virar canção. Um amigo pode virar título. Um cargo comissionado pode virar denúncia com melodia. Misturo tudo porque não acredito que a música tenha de andar em fila. Meu estilo é punk pós-tropicalista porque o punk me dá coragem, o tropicalismo me dá liberdade e o “pós” me permite chegar depois, mudar tudo de lugar e dizer que foi proposital.

Marcos Antônio (pastel Sol) – Quando você sobe ao palco do Pastel Sol, o que passa de verdade dentro de você?

Igor Mangueira – Marquinhos, quando subo ao palco do Pastel Sol, sinto alegria, emoção, nostalgia, nervosismo e vontade de pedir um pastel com um cerveja bel gelada, tudo ao mesmo tempo. Aquele público não é uma plateia anônima. Eu conheço os rostos, as risadas, os pedidos e até quem canta a letra errada com uma confiança impressionante. Isso muda tudo. Eu não entro ali para executar músicas. Entro para reencontrar pessoas. Cada apresentação carrega lembranças das noites anteriores, dos amigos que estavam presentes, das histórias contadas e das canções que foram ganhando outro significado. Mas o carinho do público transforma esse medo em energia. Quando as pessoas cantam comigo, tenho a sensação de que a música já não pertence somente a mim. E isso é bonito demais. No Pastel Sol, eu começo tocando para o público e termino sendo carregado por ele. Metaforicamente, claro, porque depois de algumas cerejas ninguém deve tentar me carregar.

Huguinho Maia – De onde nasceu a ideia do “Cacique Show”, na Rádio UFS, e o que o programa representou na sua vida?

Igor Mangueira – Huguinho, criei o Cacique Show, na Rádio UFS, para revelar a literatura existente por trás de cada música, nacional, internacional ou sergipana: onde, quando, por que e em qual estado de espírito ela foi composta. Muita gente conhece a letra e a melodia, mas desconhece a história que deu vida à canção. Eu sou um artista ao contrário: antes de cantar, preciso entrar na música, compreender sua origem e me identificar com a intenção do autor, porque não basta acertar os acordes e pronunciar as palavras. Só canta de verdade quem sabe o que está cantando. O Cacique Show nasceu para levar essa história ao ouvinte e mostrar que, quando conhecemos a raiz de uma canção, deixamos de apenas escutá-la e começamos realmente a senti-la.

James Fontes Barbosa – Quais foram as principais influências que moldaram o Igor Mangueira de hoje?

Igor Mangueira – James meu lindo, o Igor de hoje foi moldado por uma multidão. Tem um pouco da liberdade de Caetano, da rebeldia filosófica de Raul, da inteligência debochada de Rita Lee, da urgência de Cazuza, da energia do rock, da alma do forró e daquela criatividade sergipana que consegue transformar até falta de assunto em duas horas de conversa. Mas minhas maiores influências não vieram apenas dos discos. Vieram da família, dos amigos, dos bares, das ruas de Aracaju, das pessoas que acreditaram em mim, das que duvidaram e até das que foram embora deixando uma ótima possibilidade de refrão. Também fui moldado pelo público, porque cada aplauso ensina, cada silêncio corrige e cada pedido de “toca Raul” mostra que a soberania popular tem limites. O Igor Mangueira de hoje é resultado de tudo o que ouvi, vivi, amei, perdi, encontrei e transformei em música. Sou uma mistura sem bula, sem manual e sem prazo de validade. E se ainda não conseguiram me explicar, não se preocupem: eu também continuo tentando.

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