Enquanto grande parte das administrações municipais ainda confundem políticas públicas, Itabaiana, no agreste sergipano, resolveu fazer diferente: trocou a cortina de fumaça pela porta aberta do atendimento especializado. Ontem, quinta-feira, 3 de abril, a cidade realizou o I Encontro Municipal pelo Mês de Conscientização do Autismo, evento que integra a campanha “Abril Azul” — e, ao contrário do que costuma acontecer em eventos com microfone e mesa de honra, teve mais prática do que discurso.
O encontro, promovido pela Secretaria Municipal de Saúde, reuniu profissionais da área e familiares de pessoas com TEA (Transtorno do Espectro Autista) no auditório do SEST SENAT. O objetivo foi discutir políticas públicas efetivas, trocar experiências e reforçar o compromisso de garantir dignidade e atendimento contínuo a essa população — que, historicamente, vem sendo negligenciada por camadas e mais camadas de burocracia e despreparo.
Desde a inauguração do Centro de Referência do Autismo TEAcolhendo, em 2024, Itabaiana tem conseguido algo raro: fazer com que o jogo entre intenção e gesto penda para o lado da ação. O centro conta com 36 profissionais — incluindo médicos, psicólogos, terapeutas ocupacionais, fonoaudiólogos e psicopedagogos — que atendem, semanalmente, mais de 500 pacientes com diagnóstico confirmado de TEA.
Em vez de prometer mundos e fundos, a gestão municipal optou por garantir o básico bem-feito — e, num país onde o básico virou artigo de luxo, isso já é quase revolução. “Nosso compromisso é ampliar cada vez mais o acolhimento e garantir dignidade às famílias e às pessoas com autismo”, afirmou o prefeito Valmir de Francisquinho, durante o evento. Um discurso que, desta vez, encontra respaldo nos dados.
Um dos diferenciais mais aplaudidos da política municipal é o serviço de equoterapia pública. O método terapêutico, que utiliza o cavalo como agente de desenvolvimento físico, emocional e cognitivo, costuma ser inacessível para a maioria das famílias brasileiras — especialmente aquelas que dependem exclusivamente do SUS. Em Itabaiana, o serviço é ofertado de forma gratuita, com 16 profissionais especializados que realizam atendimentos contínuos em um centro exclusivo inaugurado no ano passado.
Mais do que um diferencial técnico, a iniciativa carrega uma mensagem política clara: quando há vontade, há orçamento. E quando há gestão, o impossível vira atendimento.
Apesar dos avanços, o desafio não acabou. Manter serviços públicos de qualidade requer mais do que boa intenção e manchete em jornal local: exige planejamento de longo prazo, capacitação constante, diálogo com as famílias e, claro, resistência ao desmonte — aquela velha tentação brasileira de desmontar o que funciona quando muda o inquilino do gabinete.
É cedo para cantar vitória, mas não é cedo para reconhecer o acerto. Em tempos de populismo de aplicativo e gestões que acham que “conscientização” é só pintar faixa de pedestre, Itabaiana mostra que política pública se faz com gente, com ciência e com orçamento. E faz mais: mostra que é possível ter coração sem perder a cabeça, e sensibilidade sem abrir mão da técnica.
Se outras prefeituras e o governo do Estado quiserem copiar, Itabaiana não vai cobrar royalties. Mas, se quiserem concorrer, vão ter que montar no cavalo certo — e deixar a demagogia no curral.




