O governo de Sergipe homologou por R$ 235.786,10 a compra de um espectrofotômetro FTIR para o Instituto Tecnológico e de Pesquisas (ITPS). O nome parece senha de laboratório da NASA, mas a função é bastante terrestre: identificar substâncias e examinar materiais por sua assinatura no infravermelho. A compra, feita no Pregão 364/2026, saiu abaixo do orçamento de R$ 279.827,74, com a Agilent Technologies Brasil como vencedora. Até aqui, nada de escândalo demonstrado. O escândalo seria transformar ciência em peça de museu, com direito a fita de inauguração, discurso de autoridade e uma aranha tomando posse da bancada.
O equipamento ofertado é um Agilent Cary 635, lançado em setembro, substituto do Cary 630. No exterior, anúncios do modelo anterior vão de US$ 21,3 mil a US$ 27,3 mil, sem alguns acessórios. É comparação para abrir pergunta, não para gritar “sobrepreço”: versão, impostos, câmbio, instalação, software e garantia mudam a conta. O governo precisa mostrar a pesquisa de preços da configuração exata. Porque comparar aparelho científico como quem pechincha liquidificador na feira é mole; difícil é explicar ao cidadão, nota por nota, por que a máquina chegou a quase R$ 236 mil.
E chegou mesmo? Eis a pergunta que a propaganda não responde. O pregão foi homologado em 2 de outubro, mas não localizamos comprovação pública de entrega, instalação, aceite definitivo nem primeiro ensaio. O ITPS já atua com análises de água, alimentos, solos e resíduos; em 2024, contratou por R$ 30,5 mil a manutenção de outro espectrofotômetro Agilent, de absorção atômica, equipamento diferente. Quanto custará manter e calibrar o novo FTIR? Haverá técnicos treinados, contratos de assistência e fila de clientes? Comprar sem divulgar plano de uso é a versão administrativa do sujeito que compra esteira, pendura a toalha e anuncia vida fitness.
Que o governo apresente o termo de recebimento, a data de instalação, os acessórios entregues, a garantia, a estimativa de análises mensais e os resultados prometidos ao setor produtivo, às universidades e à fiscalização ambiental. Um FTIR pode ajudar a identificar materiais e investigar adulterações, dependendo dos métodos implantados; não faz milagre sozinho nem produz laudo por osmose. Ciência séria merece investimento, mas também metas, prestação de contas e serviço funcionando. Sergipe não precisa de laboratório para fotografar governador: precisa de laboratório para produzir resultados. Senão, o único fenômeno detectado será o velho conhecido da política: dinheiro entrando na máquina e transparência desaparecendo no infravermelho.




