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João Daniel: um deputado que não esconde o lado nem foge da pergunta

João Daniel não é daqueles políticos que obrigam o eleitor a consultar uma bússola para descobrir de que lado estão. Agricultor, militante histórico do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra e deputado federal pelo PT, ele construiu a carreira política no campo, nos sindicatos, nos assentamentos e nas organizações populares. Não chegou ao mandato carregado por sobrenome tradicional, grupo empresarial ou fotografia de avô pendurada na parede. Entrou pela porteira da militância, caminhou pela estrada de chão e acabou chegando ao carpete da Câmara dos Deputados, onde já cumpre o terceiro mandato federal.

Sua trajetória eleitoral mostra uma base fiel e organizada. João Daniel foi eleito deputado estadual em 2010, com 29.936 votos. Em 2014, chegou à Câmara Federal com 52.959 votos. Foi reeleito em 2018, com 59.933, e novamente em 2022, quando alcançou 68.969 votos. É uma curva crescente, coisa rara na política, onde muito candidato sobe como foguete e desaparece como promoção de supermercado. João Daniel não é fenômeno de internet, dancinha ou impulsionamento. Sua política é feita de reunião, associação, sindicato, assentamento, plenária e café servido em copo de plástico.

A entrevista foi direta, crítica e sem porteira fechada. O Portal Fausto Leite perguntou sobre a ligação com o MST, o risco de João Daniel ser visto como deputado de uma causa só, a dificuldade de conversar com o eleitor urbano, os problemas do governo Lula, a relação com o agronegócio, as indicações políticas e a ausência de uma grande obra que seja imediatamente reconhecida pelo sergipano. Em resumo, ninguém foi convidado apenas para tomar café e elogiar o pão de queijo.

João Daniel respondeu no seu estilo habitual: firme, ideológico, detalhado e com uma quantidade considerável de “classe trabalhadora” por centímetro de resposta. Não fugiu das perguntas, não tentou se fantasiar de político de centro e não escondeu sua ligação com o MST, com o PT e com o presidente Lula. Em alguns momentos, as respostas ficaram tão completas que quase solicitaram a criação de uma comissão especial na Câmara, mas isso também revela um parlamentar que conhece sua pauta e não costuma responder apenas com frases preparadas por assessoria.

A conversa confirma a principal qualidade e, ao mesmo tempo, o maior desafio de João Daniel. Ele é coerente, reconhecível e possui lado definido. O eleitor sabe exatamente quem está levando para Brasília. O problema é descobrir até onde essa identidade fortalece o mandato e em que ponto ela cria um muro em torno dele. João Daniel fala muito bem com quem já acredita em seu projeto. A missão agora é convencer também quem nunca participou de uma assembleia, não possui boné do MST e acha que reforma agrária é apenas assunto de prova de geografia.

Nesta entrevista, João Daniel apresenta sua defesa. Fala das entregas do mandato, rebate a acusação de atuar apenas no campo, defende Lula, critica o modelo exportador do agronegócio, enumera recursos destinados a Sergipe e explica por que continua se considerando militante, e não político profissional. O leitor pode concordar, discordar ou até pedir um intervalo para respirar. O que não poderá dizer é que o deputado deixou suas posições escondidas atrás da moita.

Portal Fausto Leite: Deputado, o senhor construiu sua trajetória política dentro do MST e dos movimentos sociais. Depois de três mandatos consecutivos na Câmara Federal, qual foi a maior transformação concreta que o senhor consegue apontar na vida dos trabalhadores rurais sergipanos que possa ser atribuída diretamente à sua atuação parlamentar?

Deputado João Daniel: Fausto, a maior transformação é a conquista da dignidade e da cidadania dos nossos trabalhadores e trabalhadoras do campo. A maior transformação está na vida das pessoas que não tinham terra e passam a ter terra, casa, infraestrutura. Eu encontro em outros estados e aqui dentro de Sergipe, agrônomos, médicos, professores, formados dentro das áreas de assentamento graças ao nosso apoio, a nossa luta. Por exemplo, do último concurso para agrônomos, que já estão concursados dentro do Incra em Sergipe, que se formaram no Campus da Universidade Federal de Sergipe do Alto Sertão, essa unidade de ensino foi uma luta nossa. Como deputado federal tive a oportunidade de colocar na primeira emenda impositiva de bancada toda minha cota para o campus que está pronto para inauguração em Nossa Senhora da Glória, hoje com quase 3000 alunos. Ver por exemplo na unidade básica de Saúde de Capim Grosso, em Canindé, duas médicas formadas pela luta, pela reforma agrária, que atuam no município e em vários outros municípios hoje em Sergipe. O nosso mandato também se transformou em uma ferramenta de articulação que garantiu que milhares de famílias assentadas e agricultores familiares passassem a ter acesso a linhas de crédito, ao Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e ao Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE). Ver nossos companheiros e companheiras do campo produzindo alimentos saudáveis, com água encanada através de sistemas de abastecimento que viabilizamos junto ao Governo do presidente Lula, e com moradia digna pelo Minha Casa, Minha Vida Rural, é a prova material de que o nosso mandato popular cumpre sua função social.

Portal Fausto Leite: O senhor é reconhecido nacionalmente como uma das principais vozes da reforma agrária. Mas muitos sergipanos afirmam que o senhor se tornou um deputado de uma causa só. O senhor entende essa crítica? Em algum momento acredita que seu mandato deixou de dialogar com parte da população urbana de Sergipe?

Deputado João Daniel: O nosso mandato tem algumas causas das quais ele não abre mão: a causa em defesa da classe trabalhadora, em defesa da Constituição Federal, em defesa da soberania nacional. Nós temos estas grandes causas. Quem acompanha nosso mandato sabe que nós atuamos em todas as pautas de interesse nacional, e nós atuamos também em pautas de solidariedade internacional. Há muita gente que tem preconceito, que acha que nós temos uma causa só, que é a causa sem terra e reforma agrária. Estas causas nós temos como prioridade, temos muito orgulho e muito carinho por elas. Por isso, coordenamos durante muito tempo o Núcleo Agrário que cuida da agricultura familiar e reforma agrária na bancada federal do Partido dos Trabalhadores. Na Câmara Federal tivemos vários projetos de lei, inclusive aprovados nesta área, mas nós atuamos em todas as áreas. Nós atuamos na defesa da Petrobras, na defesa dos fertilizantes, nós atuamos na pauta para a volta da Fafen, para a volta da Petrobras. Nós atuamos na área da educação, da moradia, da defesa da água e saneamento como direito. Nós atuamos na área do transporte, defendendo uma pauta de transporte público. Nós defendemos as causas do povo brasileiro.

Portal Fausto Leite: Sua votação cresceu ao longo dos anos, mas sua imagem continua muito associada ao MST. Isso é uma força eleitoral ou também virou um limite político para quem pretende representar todo o estado de Sergipe?

Deputado João Daniel: Olha, nós temos um prazer muito grande em dizer que a gente tem muito respeito pelo povo sergipano e que dedicamos a vida, desde fevereiro de 87, ao Estado de Sergipe, ajudando na organização da classe trabalhadora, na organização dos movimentos populares, rurais, urbanos, na área da agricultura familiar e em todos os movimentos. Nós estivemos juntos em defesa de todas as lutas da classe trabalhadora, das causas da classe trabalhadora neste estado. E temos um respeito muito grande por todas as entidades. E temos uma satisfação muito grande em todas as eleições por ter sido o mais votado da Federação ou do Partido dos Trabalhadores, antes da Federação, por exemplo, como deputado estadual, e nas três de deputado federal, ficamos muito felizes em ter sido eleito. E esse trabalho continua cada dia mais, ajudando, contribuindo e construindo esta pauta histórica de defesa dos direitos da classe trabalhadora e da vida de toda a população. Quando falamos da classe trabalhadora, nós também defendemos os empresários, porque, aliás, é só o trabalho que produz riqueza, mas um empresário que cuida dos trabalhadores, que paga em dia, que garante todos os direitos, sempre teve e terá o nosso apoio. Nós defendemos um projeto de desenvolvimento nacional com garantias dos direitos e da nossa Constituição.

Portal Fausto Leite: O governo Lula voltou ao poder com a promessa de reconstrução nacional. Passados mais de três anos de mandato, inflação de alimentos, dificuldades fiscais e queda de popularidade aparecem com frequência no debate político. Como o senhor responde ao eleitor que votou em Lula e hoje demonstra frustração com os resultados do governo?

Deputado João Daniel: O presidente Lula retomou o Brasil para a reconstrução de um projeto de desenvolvimento nacional. O Brasil passou por um grande golpe com interesses internacionais, interesses da elite nacional conservadora, entreguista. Como diria e como disse o nosso grande pensador Darcy Ribeiro, “a nossa elite brasileira é uma elite conservadora, perversa”. Grande parte dela é aliada dos interesses internacionais e ela não apoia um projeto nacional. Então veja, houve um desmonte do estado brasileiro durante o governo Temer e Bolsonaro. Você tem uma aprovação da autonomia do Banco Central, você entrega o Banco Central ao rentismo, ao sistema financeiro. O presidente Lula, mesmo indicando os diretores do Banco Central, mas continua com juros altos, porque o Banco Central tem autonomia. Então, o Brasil e o presidente Lula retomam um projeto popular de programas sociais, de soberania nacional. Isso tudo é muito importante. A popularidade do presidente Lula é muito boa, mas no Brasil ainda existem graves problemas que ficaram durante a história deste país, que não é qualquer governo que pode mudar. E, portanto, houve uma interrupção no projeto de desenvolvimento nacional. Quando? Em 2016, exatamente no dia 17 de abril de 2016, a Câmara Federal autoriza o impeachment da presidenta Dilma, que se configurou e se comprovou que foi um golpe, foi um desmonte nas áreas de direitos e nas políticas públicas do Brasil. O Brasil voltou a ser endividado para pagar juros ao rentismo e o Brasil passou a ser um país que desmontou empresas estratégicas, como por exemplo a Petrobras, venderam a BR Distribuidora, venderam o gasoduto, venderam refinarias, houve uma destruição do estado brasileiro. Eu considero o presidente Lula um grande estadista, a popularidade do presidente Lula é boa, em Sergipe nós temos mais de 55% de popularidade, avalio a possibilidade real de vencer a eleição ainda no primeiro turno e a reconstrução do Brasil, que está sendo feita. Por isso eu acredito muito no projeto do presidente Lula e deste país.

Portal Fausto Leite: O senhor sempre foi um defensor da agricultura familiar. Mas setores do agronegócio afirmam que parte da esquerda trata quem produz e exporta como adversário ideológico. O senhor acredita que ainda existe espaço para conciliar reforma agrária, agricultura familiar e agronegócio produtivo ou essa divisão interessa politicamente aos dois lados?

Deputado João Daniel: Olha, o agronegócio brasileiro, a agropecuária, nós sempre tivemos boa relação. Nós temos boa relação com todos os setores do agronegócio, do Brasil e de Sergipe, que pensam no Brasil e que pensam como bons empresários, aqueles que cuidam e preservam o meio ambiente, que empregam os trabalhadores e pagam direitos trabalhistas em dia, que pagam seus impostos. Nós achamos fundamental essa relação e acreditamos muito no Brasil da agricultura familiar, na reforma agrária, nas comunidades tradicionais, nos povos indígenas. O Estado brasileiro paga uma subvenção muito alta para esta fama do agronegócio exportador, né? Nós precisamos rediscutir isso. Nós somos a favor da produção agropecuária, somos a favor das empresas que produzem, mas nós precisamos agregar valor às nossas exportações. E o grande agronegócio exportador brasileiro produz e vende commodities, e nós precisamos vender produtos com valor agregado. Por exemplo, nós não podemos continuar a vida inteira vendendo soja bruta. Precisamos vender óleo de soja, ração de soja, farelo de soja, os subprodutos de soja, a carne de soja, o que agrega valor, o que geraria emprego, riquezas aqui. A mesma coisa vale para a carne, para a madeira, para o minério, nós somos defensores da indústria nacional. Então, o grande agronegócio exportador ganha muito dinheiro no Brasil porque tem grandes extensões de terra e tem subsídio do governo federal. O orçamento público brasileiro reflete uma profunda desigualdade de prioridades: de um lado, temos o Bolsa Família, que é uma transferência de renda essencial para combater a miséria e garantir a sobrevivência de milhões de pessoas; do outro, temos a Lei Kandir, criada no governo FHC, que concede uma renúncia fiscal bilionária ao isentar o agronegócio exportador de pagar ICMS. Embora a desoneração de exportações ocorra em outros países, o modelo brasileiro é injusto porque privilegia o grande latifúndio e a exportação de commodities sem valor agregado, deixando Estados e municípios sem recursos e desamparando a agricultura familiar, que é quem de fato produz o alimento que abastece o país.

Portanto, nós temos uma boa relação, não é uma questão se dá para conciliar ou não, é uma questão de projeto. E o projeto que nós defendemos é um projeto de industrialização deste país, de garantia, de produção para aqueles que agregam valor e produzem com a família, preservam o meio ambiente e cuidam desta nação. Nós não enxergamos a terra, a natureza como um bem apenas para a exploração e formação de riqueza. Nós olhamos a natureza como a nossa casa comum, como ensinada pelo Papa Francisco. Se a natureza é nossa casa comum, ela não pode servir apenas para meia dúzia ganhar riqueza com commodities de minério, com commodities de grãos, de carne, de madeira, de petróleo para exportação. Ela precisa agregar valor e garantir riqueza para a nossa população brasileira.Por isso, nós somos também autores, nessa área de minérios, junto com a bancada federal, da criação de uma empresa nacional para cuidar das riquezas naturais deste país.

Portal Fausto Leite: Críticos do seu mandato dizem que o senhor produz muitos discursos, participa de muitas mobilizações e eventos, mas que falta uma grande marca administrativa ou uma obra que o eleitor comum consiga identificar imediatamente como resultado da sua atuação. O senhor considera essa crítica injusta ou ela tem algum fundamento?

Deputado João Daniel: Olha… as críticas e aqueles que pensam diferente, eu acho normal, né? E as pessoas podem achar que tem marca, não tem, ah, tem a marca do Sem Terra… Eu acho que nós temos a marca daquilo que me ensinaram e me construiu como gente, como ser humano, que é construir uma vida pautada com compromisso. Primeiro, o compromisso com os mais pobres, com aqueles que não têm casa, com aqueles que não têm trabalho, com aqueles que não têm terra, com aqueles que não têm direitos. Então, esse é o nosso grande compromisso, a nossa grande marca. Uma grande obra… Bom, o deputado não faz obras materiais, né? Ele participa de obras. Eu vejo muita coisa nossa por onde eu ando. Nós temos máquinas e equipamentos agrícolas espalhados pelo estado inteiro de Sergipe, seja motoniveladora, máquina pesada para limpeza de barragens no Alto Sertão, tratores e equipamentos para agricultura familiar e comunidades tradicionais, pequenas máquinas, os tratoritos. Ajudamos a entregar colheitadeiras pequenas para agricultura familiar da produção de arroz, as primeiras que chegaram em Sergipe, em parceria com a CONAB. Eu vejo, por exemplo, o Campus do Alto Sertão, uma grande obra material, onde foram implementados 20 milhões de emenda impositiva, cota parte exclusiva do nosso mandato. Eu vejo a reforma e ampliação da área de pesquisa da Embrapa, entre os municípios de Nossa Senhora da Glória e Feira Nova, que ainda este ano será inaugurada, emenda nossa para pesquisa do semiárido, para agricultura familiar e para pecuária leiteira. Eu vejo o Instituto Federal de Poço Redondo uma marca muito importante, se você perguntar ao ex-reitor Ailton Ribeiro, você vai saber que fomos nós, juntamente com ele, que conseguimos emenda e recursos para implantar aquele IFS. Quando você vai em Lagarto, você tem o hospital mais moderno de combate à doença do câncer, um dos primeiros parlamentares a conversar com Henrique Prata e com Juquinha, que organizava esse projeto, fomos nós, tem a nossa cota parte, está lá inaugurada atendendo as pessoas. Assim como em todas as áreas, né? Agora há pouco inauguramos com o governo federal, com o Estado e o município de Itabaiana, habitações de interesse social, e sou o parlamentar que mais coloca recursos para subsídio de habitação de interesse social para o estado de Sergipe. Então, eu atuo em todo o estado na área da saúde, da educação, da infraestrutura, em todas as obras nós temos colocado emendas e viabilizado recursos. Mas quero deixar claro para você que eu defendo que obras quem deve fazer é o executivo, é o município, o Estado e a União, e devemos voltar a discutir o papel dos deputados e a questão das emendas. Eu sou a favor de que todos os recursos devem ser executados e devem ser do Executivo. O parlamentar e o parlamento têm um papel diferenciado. E depois do golpe contra a presidenta Dilma, Eduardo Cunha quis criar autonomia, e criou autonomia para o Congresso Nacional, aprovou as emendas individuais e as emendas de bancadas impositivas, e o orçamento passou a ter muita força sob controle de comissões e dos presidentes do Congresso e da Câmara Federal. Então, eu sou contrário a isso. O orçamento deve ser público, aberto e ser do Executivo Municipal, Estadual e Federal, e não do Parlamento. O parlamento não pode fazer obra, não deveria fazer obra, esse não é o papel constitucional do parlamento, por isso nós precisamos rediscutir para debater o real papel do estado brasileiro. Qual é o papel, realmente, do legislativo: ter emendas para fazer obras? Se você olhar nos governos Temer e Bolsonaro, praticamente não há obras do governo, você tem obras dos deputados, porque o orçamento ficou na mão do Centrão. Eles faziam obras de pavimentação, asfalto, máquinas e prejudicavam quem era da oposição. O governo Lula trabalha para democratizar. O STF e Flávio Dino tomaram uma decisão muito importante, que é tornar as emendas transparentes: de quem são? Onde estão? O que fazem as emendas? Nós somos muito favoráveis a isso, sempre.

Portal Fausto Leite: Em Sergipe, adversários apontam que o PT ocupa espaços importantes na estrutura federal e frequentemente surge o debate sobre indicações políticas e nomeações de aliados. O senhor entende que esse tema desgasta a imagem do partido? Como convencer a população de que essas escolhas são técnicas e não apenas políticas?

Deputado João Daniel: Sobre cargos federais, o governo do presidente Lula fez uma composição para governar o Brasil. Então, veja bem, por exemplo, no estado de Sergipe, todos os cargos federais, com exceção do INCRA, da questão da reforma agrária do estado, todos os cargos, até bem pouco tempo, eram da bancada federal. Dos sete deputados federais, eu e o senador Rogério Carvalho só tínhamos a indicação da questão agrária. Então, portanto, houve uma decisão do governo federal. Eu não posso dizer se está certa ou está errada. Eu sei que a maioria não tinha compromisso com o governo. Inclusive, teve gente que ocupou cargo federal e, na hora que precisava descompatibilizar, se descompatibilizou para ser candidato na oposição. Então, é um problema muito grande essa composição, porque para o Centrão e para os setores conservadores eles querem emendas e cargos, e nenhum governo governa se não tiver maioria para aprovar os projetos importantes, por isso que é um problema. Agora, realmente mudou algumas coisas, o próprio Márcio Macedo ocupou cargo federal também, que é do nosso lado. Mas essa é uma dificuldade muito grande, porque a população brasileira votou para o presidente Lula mudar o Brasil, mudar a política desastrosa que vinha do governo Temer e Bolsonaro, mas elegeu a maioria do Centrão conservador. Então, esse é o grande problema. Eu espero que o próximo congresso possa ter ampliado o campo democrático e popular, não necessariamente do PT, mas também do campo democrático popular. Um congresso que possa debater a importância desse país como nação, um projeto de desenvolvimento nacional, de integração internacional, o fortalecimento de políticas públicas.

Portal Fausto Leite: Depois de tantos anos no Congresso, o senhor ainda se enxerga como um militante que ocupa temporariamente um mandato ou como um político profissional? E qual é o maior risco para alguém que passou a vida inteira defendendo uma causa: deixar de ouvir quem pensa diferente?

Deputado João Daniel: Eu não vejo a vida como parlamentar como profissão, vejo a vida parlamentar como um espaço e uma tarefa dada pela população e por aqueles que têm um projeto junto com você. O nosso mandato é um compromisso com o Movimento Sem Terra, com o Partido dos Trabalhadores e com aqueles que nos apoiam sempre. Então, portanto, eu não mudei, não mudo e tenho aquele velho ditado: “onde os pés pisam, a cabeça pensa”. Portanto, a gente precisa pisar e estar no meio das nossas pessoas que têm a nossa história e o nosso compromisso. Por isso eu tenho esse compromisso de vida, de continuar sendo a mesma vida, e essa tarefa como parlamentar não muda em nada a nossa vida. Ela ajuda a nos fortalecer para fazer as grandes políticas que nós não poderíamos fazer se não tivéssemos o mandato. Como disse o Papa Francisco, que a política para um cristão dá a oportunidade para ele fazer grandes ações para os mais pobres, para os sem teto, sem terra, sem trabalho. Esse é o nosso grande objetivo: ter um mandato para fortalecer as lutas populares, a organização popular e melhorar a vida da nossa população.

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