Há despedidas que a razão compreende, mas o coração se recusa a assinar. A partida de Jorge Valença é uma delas. Sergipe perdeu um dos grandes nomes do Direito Penal, um defensor público respeitado, um professor inesquecível e um homem que fez do conhecimento uma forma delicada de servir. Eu, porém, não consigo escrever sobre Jorge Valença apenas com a distância profissional de quem registra a morte de um jurista. Escrevo como admirador, amigo e grande entusiasta de sua trajetória. Escrevo com a gratidão de quem conversou com ele, aprendeu com ele e recebeu dele confiança. Hoje, não são apenas os códigos que parecem mais silenciosos. Há um vazio nos corredores, nas salas de aula e dentro de todos aqueles que tiveram o privilégio de conhecê-lo.
Jorge dedicou a vida à Justiça, mas sua obra mais bonita talvez tenha sido formar pessoas. Passou por diferentes faculdades, ajudou a construir cursos de Direito e ensinou gerações de estudantes a compreender que a advocacia não é somente profissão. É responsabilidade diante da vida alheia. Foi coordenador dos cursos de Direito da Faser e da Facar, deixando uma marca que nenhum histórico acadêmico consegue registrar por inteiro. Foi graças à sua indicação e à sua confiança que o substituí na coordenação da Faser. Permaneci cinco anos à frente do curso, mas nunca esqueci que aquele caminho me foi aberto pelas mãos generosas do professor Jorge Valença. Ele não me entregou apenas um cargo. Entregou-me uma responsabilidade e, sobretudo, uma demonstração de amizade que guardarei enquanto viver.
Em sala de aula, Jorge ensinava com serenidade. Não precisava de espetáculo, frases ensaiadas ou voz elevada. Falava como quem conversava, mas ensinava como quem sabia exatamente o peso daquilo que transmitia. A calma, entretanto, desaparecia quando chegava a prova. Os alunos, com o humor que costuma nascer do medo, apelidaram-no carinhosamente de “Jorge Violência”. Suas avaliações eram difíceis, exigentes e capazes de provocar súbitos surtos de fé até nos estudantes mais distraídos. Mas Jorge era rigorosamente justo. Nunca cobrou uma linha que não tivesse ensinado. Não armava ciladas acadêmicas. Apenas se recusava a formar profissionais pela metade. A prova assustava, mas o professor acolhia.
Por trás da exigência havia um homem profundamente comprometido com o futuro de cada aluno. Jorge não distribuía facilidades porque sabia que, fora da faculdade, o erro de um advogado pode custar a liberdade, o patrimônio e a esperança de alguém. Queria formar profissionais preparados, responsáveis e humanos. Muitos dos advogados, defensores, professores, magistrados, promotores e servidores da Justiça que hoje atuam em Sergipe carregam algo dele. Talvez uma explicação, uma advertência, uma pergunta difícil ou aquela maneira tranquila de demonstrar que o Direito Penal não trata apenas de crimes e penas. Trata, antes de tudo, de seres humanos em seus momentos mais frágeis.
Minha dor também se mistura a uma lembrança familiar. Tive um carinho muito grande não apenas por Jorge, mas por seu irmão, Caio Valença, que também partiu cedo demais, aos 47 anos. Há famílias que parecem obrigadas a suportar despedidas que nenhuma estrutura emocional deveria comportar. Recordar os dois é lembrar de inteligência, afeto e presença. É perceber como a vida pode ser injustamente breve com pessoas que ainda tinham tanto para oferecer. Jorge conheceu essa ausência e, mesmo assim, continuou ensinando, sorrindo e ajudando outras pessoas. Agora, sua partida reabre uma ferida antiga e deixa em seus familiares, amigos e alunos aquele silêncio particular que somente os grandes afetos conseguem produzir.
Hoje morre um professor, um defensor público, um jurista e um amigo. Para mim, parte também o homem que acreditou em minha capacidade e colocou seu nome ao lado do meu quando me indicou para continuar seu trabalho. Há gestos que mudam uma carreira e há pessoas que mudam uma vida. Jorge fez as duas coisas. Sergipe fica mais pobre, a educação jurídica perde um mestre e o Direito Penal sergipano perde uma de suas referências mais humanas. Mas Jorge Valença não termina nesta despedida. Ele continuará presente em cada profissional que ajudou a formar, em cada aluno que ainda sorri ao recordar “Jorge Violência” e em cada pessoa que recebeu dele confiança, conhecimento ou amizade. Alguns professores encerram a aula e vão embora. Os grandes mestres, como Jorge, permanecem falando dentro de nós.




