Kitty Lima subiu à tribuna da Assembleia Legislativa como quem sobe ao palco de um drama político: cheia de emoção, palavras grandes e uma convicção que parece ter brotado da noite para o dia. De microfone em punho, defendeu Ricardo Marques e a unidade do partido Cidadania, enquanto criticava o silêncio de Georgeo Passos como se o partido estivesse à beira de um colapso moral. A fala teve o tom de quem tenta apagar um incêndio mas, ironicamente, foi ela quem acendeu o maçarico.
No discurso, Kitty se vendeu como símbolo de lealdade e coerência, mas o histórico político não confirma o enredo. Nas últimas eleições, ela não apoiou Ricardo Marques; pelo contrário, trabalhou contra ele, como o próprio Georgeo fez questão de lembrar. A deputada, que começou na Rede Sustentabilidade, agora posa de bastião do Cidadania, um salto partidário digno de novela, só que sem o roteiro explicando a virada de personagem.
Hoje, Kitty é vice-líder do governo de Fábio Mitidieri na Assembleia, cargo confortável para quem insiste em bancar o papel da voz independente. O problema é que fica difícil fazer discurso inflamado contra o sistema quando se está abraçada a ele. O tom oposicionista travestido de defesa partidária soa mais como ensaio de imagem do que convicção real. Parece mais tentativa de reposicionar a própria biografia do que de salvar o partido.
Enquanto ela cobra união, Georgeo Passos mantém coerência e postura. Disse que não apoiaria o governo e manteve a palavra, algo raro num cenário em que muitos mudam de lado conforme a maré. Sua firmeza incomoda porque expõe o que falta nos demais: autenticidade. Já Ricardo Marques, alvo involuntário desse teatro, demonstra maturidade e disposição para o diálogo, preferindo construir pontes a incendiar plenários, atitude cada vez mais rara em tempos de microfone fácil e convicção volátil.
Fábio Mitidieri, por sua vez, observa tudo com a serenidade de quem domina o xadrez político. De longe, sem pressa, sem discurso inflamado, administra com discrição e estratégia. Enquanto uns se engalfinham em plenário, o governador segue firme, ciente de que o eleitor reconhece quem fala por convicção e quem atua por conveniência. Sua tranquilidade é a melhor resposta à gritaria alheia.
No fim, o discurso de Kitty Lima parece mais uma tentativa de reescrever o próprio papel na história do que uma defesa autêntica do Cidadania. Quer vender coerência no atacado, mas entrega contradição no varejo. O partido, por sua vez, precisa decidir se será palco de vaidades ou espaço de convicções reais. Que o Cidadania honre o próprio nome e pratique, entre seus membros, a cidadania que tanto proclama. Porque o eleitor está cansado de discursos bonitos e alianças de ocasião. E, convenhamos, neste momento, o que falta à política sergipana não é mais voz, é verdade.




