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Kleiton Ferreira: o juiz que virou gente antes de virar exemplo

Dizem que o Brasil é o país das togas pesadas e dos rostos sérios, onde juiz não ri, advogado espera em pé e o povo entra na audiência como quem atravessa um campo minado. Mas há uma exceção que anda desarmando a liturgia da Justiça e virando notícia pelas razões certas: o juiz federal Kleiton Ferreira, o alagoano de Arapiraca que decidiu que o Direito não precisa ser sisudo para ser respeitado. Nascido no agreste, formado em direito depois de anos de batalha, Kleiton cresceu entre o sotaque e o sonho. Trabalhou duro antes de vestir a toga, foi montador de móveis, advogado por dez anos, concurseiro persistente e, depois de muito tropeço, juiz federal. Hoje, quando entra na sala de audiência, traz no olhar o mesmo menino que aprendeu a ouvir gente simples. “Não estou aqui para julgar pessoas, estou aqui para entender histórias”, costuma dizer. E talvez por isso, suas audiências pareçam menos um tribunal e mais uma conversa de varanda.

Em uma delas, uma senhora de 74 anos, tremendo ao falar, foi recebida com um sorriso. “Sente-se, meu bem. Gente boa a gente trata bem.” A risada ecoou, e o vídeo correu o país. Num tempo em que as pessoas têm medo de juiz, Kleiton fez o improvável: as pessoas começaram a gostar de assistir audiências. Mas engana-se quem pensa que isso é marketing. O homem que emociona e faz rir diante das câmeras é o mesmo que, fora delas, recoloca o ser humano no centro do processo judicial. “Quem chega aqui não vem por vaidade, vem por necessidade”, ele repete. E é com essa lógica que conduz o dia a dia: a audiência não é o espetáculo da autoridade, mas o palco da dignidade.

Durante a Bienal Internacional do Livro de Itabaiana, Kleiton subiu ao palco com um microfone e a coragem de ser diferente. Falou de Direito, sim, mas com a leveza de quem fala da vida. Disse que “juiz bom é aquele que dorme com a consciência limpa, não com o ego cheio”, e provocou gargalhadas quando contou que certa vez um réu o chamou de “meu irmão”. “Pois somos mesmo”,respondeu. “Só que eu tô de terno e você, de esperança.” O público aplaudiu de pé. Entre um caso e outro, Kleiton também escreve. Autor de Crônicas de um Mentiroso e Na Última Vaga, ele fala de concurso público, de derrotas e de fé, um retrato sincero do nordestino que não desiste. “Saímos do interior para ganhar a vida, mas deixamos a vida no interior”, disse certa vez. E talvez seja por isso que ele nunca deixou o sotaque de Arapiraca: é a lembrança viva de onde vem a sua empatia.

Enquanto isso, as redes sociais fazem dele um fenômeno improvável. São milhões de visualizações em vídeos curtos de audiência, frases que misturam sabedoria e humor, e uma legião de seguidores: advogados, estudantes e gente comum que encontram nele algo raro: um juiz que parece gente de verdade. Em um país cansado de arrogância togada, Kleiton virou referência sem querer. Mas se há um Kleiton que encanta, há também o contraste que incomoda. Porque quanto mais ele cresce, mais evidente fica o abismo entre juízes humanos e juízes hierárquicos. Em muitos tribunais, advogados ainda esperam horas por um despacho, partes não são ouvidas e ministros confundem toga com divindade. São os que falam em “decoro” enquanto esquecem de praticar respeito.

Kleiton, ao contrário, devolve à Justiça o que ela perdeu: voz, rosto e calor. Ele não se coloca acima de ninguém. “Quem entra aqui não busca espetáculo, busca esperança”, costuma dizer em suas audiências. E essa frase, dita com humor e serenidade, é a síntese do que o Judiciário brasileiro parece ter esquecido. Cleiton faz rir. Não por deboche, mas por ternura. Durante uma audiência, ao ver um advogado gaguejando de nervoso, interrompeu: “Doutor, respire. Aqui não é tribunal de execução de guilhotina. É só um bate-papo com papel timbrado.” A sala veio abaixo. Mas foi nesse riso que ele desarmou o medo, aquele medo que faz o cidadão achar que juiz é inimigo.

E é isso que o torna diferente: ele não usa o humor para fugir da seriedade, mas para abrir caminho para ela. Como disse certa vez, meio em tom de brincadeira, meio em filosofia: “A audiência é o palco mais humano do Direito. O problema é que tem juiz achando que é show solo.”Essa leveza o tornou um personagem improvável, um juiz popular, mas respeitado; engraçado, mas profundo. Enquanto tantos outros se isolam, Kleiton se mistura. Enquanto uns se cercam de pronomes de tratamento, ele distribui gentileza. Enquanto uns enxergam poder, ele enxerga pessoas.

O Brasil jurídico precisa ouvir mais vozes como a dele. Num tempo em que muitos juízes confundem formalidade com frieza, Kleiton mostra que respeito e empatia cabem na mesma toga. É o juiz que desmonta o estereótipo, que humaniza o cargo, que ensina com humor, simplicidade e coragem que ser juiz não é ser melhor que ninguém; é ser responsável por todos. E se parte da magistratura ainda acredita que o povo deve subir degraus para ser ouvido, Kleiton Ferreira desce os degraus todos os dias, de terno, sorriso e alma nordestina, para lembrar que a Justiça só faz sentido quando cabe dentro da vida das pessoas.

Uma resposta

  1. Comentário perfeito
    Gostaria de fazer uma audi com esse juiz.
    Ele é impecável no tratar no respeitomaravilha

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