Antes de tudo, convém corrigir a primeira ironia: o Progressistas não é um partido pequeno no cenário nacional. Desde março de 2026, PP e União Brasil formam oficialmente a Federação União Progressista, presidida nacionalmente por Antônio Rueda e obrigada a atuar como uma única legenda por, no mínimo, quatro anos. Portanto, a discussão em Sergipe não envolve uma associação de bairro escolhendo quem ficará com a chave da sede. Envolve comando político, organização das candidaturas, estratégia eleitoral e administração partidária. Mas é preciso separar poder de fantasia: controlar o CNPJ da Federação não significa guardar as emendas parlamentares numa gaveta, como quem distribui bombons aos aliados comportados. Emendas são apresentadas por deputados, senadores, bancadas e comissões, enquanto os recursos eleitorais seguem critérios nacionais e regras da Justiça Eleitoral. O CNPJ não é uma lâmpada mágica, mas ninguém disputa tanto uma lâmpada se não acreditar que algum gênio político poderá sair dela.
De um lado está André Moura, ex-deputado federal, presidente estadual do União Brasil e pré-candidato ao Senado. Nas manifestações públicas encontradas, André tem adotado uma tonalidade serena, falando em diálogo, consenso e construção política. Serenidade, em política, não significa ausência de ambição. Significa saber que quem levanta demais a voz geralmente está tentando esconder que perdeu o controle da sala. Do outro lado está Laércio Oliveira, senador da República e presidente estadual do PP, diante do desafio de explicar por que deseja comandar uma estrutura que, aparentemente, não conseguiu manter inteiramente organizada dentro do próprio partido. André fala como quem pretende administrar o conflito. Laércio precisa demonstrar que consegue administrar primeiro o próprio mapa político.
É justamente nesse mapa que começa a comédia, embora os personagens pareçam não perceber que o público já entendeu a piada. Levi Oliveira, vereador de Aracaju pelo PP e sobrinho de Laércio, aparece como aposta para deputado federal. Luciano Pimentel, deputado estadual e antigo aliado do senador, deixou o PP e hoje está filiado ao PL. Thiago Rangel, tratado nos bastidores como afilhado político de Laércio, também saiu do Progressistas e foi para o Podemos. Quando o presidente de um partido apresenta seus principais aliados e, pouco depois, cada um aparece numa legenda diferente, aquilo deixa de parecer estratégia de fortalecimento e começa a lembrar uma sala de embarque. Um vai para o PL, outro para o Podemos, outro permanece no PP, e o presidente continua no saguão anunciando que o voo está completo.
A geografia ideológica de Laércio é tão criativa que já deveria ser ensinada nos cursos de contorcionismo político. O senador reafirma apoio à reeleição de Fábio Mitidieri, governador pelo PSD e aliado do presidente Lula. Para uma das vagas do Senado, abraça Rodrigo Valadares, deputado federal do PL e representante da direita bolsonarista. Para a outra, apoia Edvaldo Nogueira, ex-prefeito de Aracaju, atual presidente estadual do PDT e pré-candidato ao Senado. E chamar Edvaldo apenas de pedetista é contar a história pela metade: ele passou 39 anos militando no PCdoB, foi dirigente da legenda e construiu praticamente toda a sua formação política nas fileiras comunistas. Em linguagem popular, um comunista de carteirinha que hoje carrega a carteira do PDT. Para completar o malabarismo, Laércio ainda apoia o projeto presidencial de Flávio Bolsonaro. É possível chamar isso de amplitude, pragmatismo ou capacidade de diálogo. Também é possível perguntar em que ponto termina a articulação e começa o contorcionismo sem coluna vertebral. Um pé está no palanque de Lula e Fábio, o outro no de Flávio e Rodrigo, uma das mãos segura Edvaldo e a cabeça continua voltada para os próprios interesses. Na política sergipana, para ocupar tantos palanques ao mesmo tempo, já não basta ser articulado. É preciso virar centopeia, polvo e camaleão numa única candidatura.
No fim, a disputa não deveria ser resolvida pela altura da voz, pelo grau de parentesco ou pela capacidade de estacionar aliados em legendas vizinhas. Deveria ser definida pelas regras da federação, pela representatividade real de cada partido, pela capacidade de formar chapas competitivas e pela habilidade de preservar a unidade. A serenidade demonstrada publicamente por André Moura é um atributo relevante para uma negociação dessa natureza, mas não lhe entrega automaticamente o comando. Da mesma forma, o mandato de Laércio Oliveira no Senado não pode funcionar como escritura definitiva do partido em Sergipe. O PP não é pequeno. O que diminui uma legenda é transformá-la em extensão de projetos pessoais, familiares ou circunstanciais. Partido existe para organizar a sociedade. Quando passa a servir apenas para organizar parentes, suplentes e palanques, deixa de ser progressista e vira apenas um grupo tentando descobrir quem ficará com a senha do banco.




