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Lagarto em festa, mas quem paga a conta?

Nos últimos meses, a cidade de Lagarto parece ter virado a “capital mundial das festas juninas”. Teve festa antes, durante e depois do São João, com direito a bandas renomadas, foguetões estourando noite adentro, quadrilhas estilizadas e uma programação cultural digna de São Paulo Fashion Week, só que com chapéu de palha. As ruas vibraram, o comércio faturou e o turismo sorriu, mas um detalhe incômodo estragou a ressaca do forró: no meio do apogeu, a prefeitura decretou emergência fiscal por 180 dias.

Sim, você leu certo. Festa sem parar em plena crise. A pergunta é inevitável: como uma gestão municipal consegue bancar uma programação grandiosa, contratar artistas caros e, dias depois, publicar no Diário Oficial que “não tem mais condições”? Parece aquele anfitrião que banca um casamento luxuoso e, no dia seguinte, pede dinheiro emprestado para pagar a conta do bufê. E, cá entre nós, isso não é só um problema de narrativa; é um problema de prioridades.

Os números, aliás, falam por si. Estimativas de bastidores apontam que a programação de São João em Lagarto custou entre R$ 8 e R$ 10 milhões, considerando contratação de artistas nacionais, montagem de estrutura, segurança, som e iluminação. Só alguns nomes do forró e sertanejo que se apresentaram na cidade levaram cachês de R$ 400 mil a R$ 600 mil cada. Em paralelo, o decreto de emergência congela despesas, restringe serviços e serve como argumento para justificar a falta de investimentos em áreas essenciais. A matemática simplesmente não fecha.

Mais grave ainda: enquanto a prefeitura corta gastos com manutenção urbana, saúde e infraestrutura, a cidade não dispõe de um fundo de reserva que garanta equilíbrio em tempos de vacas magras. Resultado? A população vê ruas esburacadas, atraso em pequenos serviços e o discurso de “aperto de cinto” se chocar com a realidade de megaeventos. Um paradoxo que mina a credibilidade da gestão municipal e dá combustível às críticas de que a festa vale mais que a cidade.

E o novelo não para por aí. O prefeito Sérgio Reis ainda se viu no centro de outro debate de alta temperatura: o Hospital do Amor, em Lagarto, anunciado como um avanço na área oncológica, virou palco de um embate silencioso e, às vezes, nem tão silencioso, com o governador Fábio Mitidieri. Enquanto Mitidieri corre contra o tempo para finalmente inaugurar o tão esperado Hospital do Câncer em Aracaju, que promete ser um divisor de águas no tratamento oncológico no Estado, Sérgio Reis parece atuar em compasso próprio.

O Hospital do Amor, embora carismático no nome, ainda não funciona com a estrutura de um hospital completo: em tese, realiza exames e diagnósticos, mas as cirurgias e procedimentos mais complexos acabam sendo deslocados para o Hospital Universitário e outras unidades. Fábio Mitidieri, que assumiu como prioridade entregar o Hospital do Câncer depois de anos de obras paradas, não quer ver que uma das suas principais conquistas seja ofuscada por projetos paralelos politizados. Ele articulou com Henrique Prata, presidente do HA, costurou com a Vigilância Sanitária a liberação de licenças e integrou a rede pública ao Hospital Nossa Senhora da Conceição, para que os pacientes fossem acolhidos enquanto o HA não atinge sua plenitude operacional.

Sérgio Reis, no entanto, ao invés de somar, dá sinais de resistência. Participa das reuniões, mas solta farpas, questiona prazos e, em alguns momentos, parece mais preocupado em ser protagonista do que parceiro. Essa postura acende uma luz amarela: até que ponto o prefeito de Lagarto é, de fato, aliado do governador? Ou será que estamos diante de um “aliado independente”, aquele que abraça quando convém, mas que não hesita em confrontar?

Vale lembrar que Sérgio Reis já protagonizou movimentos que causaram frisson no grupo político de Fábio. Logo no início de sua gestão, anunciou que um dos senadores que apoiaria seria Rogério Carvalho, uma escolha carregada de simbolismo, considerando as mágoas históricas e o desgaste público entre o governador e o senador petista. Isso sem falar no distanciamento de figuras como Gustinho Ribeiro, aliado tradicional de Fábio e do grupo, que apoiava a candidatura da sobrinha Rafaela Ribeiro à prefeitura. Mitidieri, inclusive, subiu diversas vezes no palanque de Sérgio, contrariando setores importantes do próprio bloco político, mas isso parece que não foi suficiente para Sérgio Reis.

Agora, com a gestão municipal “solta” e cada vez mais autônoma, cresce a percepção de que o prefeito de Lagarto está se distanciando do governo do Estado. E esse distanciamento não é apenas institucional: ele também reverbera em bastidores políticos delicados, como as articulações em torno das eleições de 2026.

A insatisfação do deputado Ibrain de Valmir (PV) com supostas movimentações do pré-candidato ao Senado André Moura (UB) em direção aos Ribeiros em Lagarto mostra que o tabuleiro político da região está mais instável do que nunca. Ibrain foi direto ao ponto: “Se André Moura estiver com Gustinho no palanque, eu não fico”. A declaração escancarou um dilema interno no grupo e reforçou a sensação de que alianças históricas podem ser rifadas em nome de acordos pontuais. Mas é preciso reconhecer que André Moura tem uma habilidade política acima da média: sabe construir pontes, costurar apoios improváveis e dialogar com aliados feridos. Por isso, não se pode descartar que ele ainda consiga convencer Ibrain a permanecer ao seu lado, transformando o atual desconforto em mais um gesto de unidade no grupo.

Nesse cenário turbulento, a contradição entre discurso e prática se torna ainda mais evidente. Sérgio Reis promove festas e mais festas, mas assina decretos de emergência. Defende o Hospital do Amor como bandeira. Se afasta de aliados estratégicos, mas quer continuar sendo tratado como peça central do tabuleiro. Tudo isso enquanto Lagarto, a “majestade do agreste”, vive a dualidade de cidade festeira e cidade em crise.

E você, internauta, o que acha dessa sequência de capítulos? É coerente bancar festas milionárias e decretar emergência dias depois? É lealdade ou jogo duplo confrontar o governador no caso do Hospital do Amor? Comente aqui embaixo, curta, compartilhe e ajude a movimentar esse debate. Porque, no fim das contas, a política de Lagarto está mais quente que qualquer fogueira de São João!

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