Na política, existem entrevistas em que o entrevistado responde apenas o que o marqueteiro autorizou. E existem aquelas em que a história fala mais alto que a estratégia. A conversa de hoje passeia por esse terreno. Entre o leque que já virou marca registrada, a tribuna que nunca conheceu o botão do silêncio e uma oposição que costuma fazer mais barulho que trio elétrico em dia de eleição, Linda Brasil mostra por que desperta tantos aplausos quanto críticas. E, convenhamos, político que não incomoda ninguém normalmente também não muda muita coisa.
Goste-se ou não de suas posições, uma coisa é impossível negar: Linda Brasil construiu uma trajetória sem sobrenome político, sem herança eleitoral e sem pegar carona no poder de ninguém. Chegou onde chegou empurrando portas que muitos diziam nem existir. Nesta entrevista, o leitor encontrará uma parlamentar firme, uma militante convicta e uma personagem que ajuda a explicar por que a política sergipana anda cada vez menos previsível. Afinal, no Parlamento, há quem carregue apenas um mandato. Linda carrega causas. E isso, para o bem ou para o mal, nunca passa despercebido. Vejamos o que disse Linda:
Portal Fausto Leite – Deputada Linda, a senhora saiu de Santa Rosa de Lima, passou pela educação, pela militância, pela universidade, pela Câmara de Aracaju e chegou à Assembleia Legislativa fazendo história. Antes da tribuna, antes do mandato e antes do leque virar quase um símbolo de presença, quem é Linda Brasil na intimidade?
Linda Brasil – Nasci em Santa Rosa de Lima, no povoado Canabrava, no interior de Sergipe, filha mais nova de Maria Carmen Azevedo Santos e Apolinário José dos Santos. Desde muito cedo enfrentei desafios que foram superados, em especial, com o apoio e acolhimento da minha família. Aos 11 anos passei a morar em Aracaju, onde estudei no Colégio Estadual Professor Paulo Freire (antigo Colégio Presidente Castelo Branco), educador que se tornou uma das minhas principais referências e inspirações. Formada como técnica em contabilidade, atuei profissionalmente na área, mas vivi um conflito profundo pois o papel que eu exercia naquele momento anterior à minha transição, não correspondia a quem eu realmente era. Esse conflito perdurou por muitos anos, por medo da discriminação e de perder o amor dos meus pais. Foi apenas aos 30 anos que consegui externar minha transexualidade e iniciar uma nova etapa da minha vida, pautada pela autenticidade e pela liberdade de ser quem sou. Decidi, nessa ocasião, mudar de carreira e passei a fazer cursos que me proporcionassem oportunidade de trabalho com maior liberdade para existir conforme a minha identidade de gênero. Foi na área da beleza que comecei a trilhar esse novo caminho e a ressignificar a minha existência. Cabeleireira e maquiadora, fundei o Instituto de Beleza Linda Brasil. Esse foi um marco significativo na busca pelo meu espaço na sociedade e pela minha autonomia financeira. Por tudo que representava para mim, passei a adotar esse nome: Linda Brasil. Depois de viver por um período na Itália, retornei para Aracaju e ingressei na universidade, no ano de 2013, após ser aprovada no Enem. A educação transformou minha vida e me mostrou que o conhecimento é uma ferramenta poderosa para enfrentar desigualdades. Foi na universidade que compreendi ainda mais a importância da luta coletiva e da defesa dos direitos humanos. As experiências de transfobia que vivi me impulsionaram a transformar a dor em ação, contribuindo para conquistas importantes, como o reconhecimento do nome social na Universidade Federal de Sergipe. Essa conquista surgiu justamente de uma iniciativa que tomei após não ter o meu nome social respeitado. Sempre acreditei que ninguém deve caminhar sozinho. Esse sentimento me levou a ajudar na criação de projetos como o EducaTrans, para que outras pessoas trans tivessem a oportunidade de se preparar para ingressar na universidade, e fui uma das fundadoras da CasAmor, voltada ao acolhimento de pessoas trans em situação de vulnerabilidade. Essas iniciativas nasceram, justamente, do desejo de acolher, apoiar e criar oportunidades para pessoas historicamente excluídas. Sou uma mulher trans, educadora, ativista, cristã e sergipana que acredita que a política deve servir para ampliar direitos, combater injustiças e construir uma sociedade mais humana e democrática.
Portal Fausto Leite – A senhora foi a vereadora mais votada de Aracaju em 2020 e depois se tornou a primeira mulher trans eleita deputada estadual em Sergipe. Quando olha para essa caminhada, a senhora sente mais orgulho, responsabilidade ou aquela vontade de dizer: “eu avisei que a gente ia chegar”?
Linda Brasil – Eu fui forjada, politicamente, nos movimentos estudantis, feministas e a partir das lutas dos movimentos sociais na militância do PSOL. As conquistas que alcancei não foram conquistas individuais, por isso as encaro, principalmente, como uma grande responsabilidade, mas também com orgulho por tudo o que conquistamos. Fui a primeira mulher trans eleita vereadora em Aracaju e sou a primeira deputada estadual trans em Sergipe. Esse fato transformou paradigmas e evidenciou uma nova e urgente perspectiva de representatividade nos espaços de poder. Aqui, estou diante de uma missão que é promover respeito à diversidade, aos direitos humanos e de fortalecer a luta por justiça social em Sergipe. É importante lembrar que, para a população trans, as perspectivas sempre foram limitadas. Nossa expectativa de vida é de 35 anos. Muitas pessoas ao externarem a sua identidade passam por processos de exclusão e vulnerabilização, muitas vezes sendo abandonadas por quem deveria lhes oferecer segurança, cuidado e amor. Até pouco tempo atrás, não se via pessoas trans ocupando espaços na sociedade ou no mercado de trabalho, e isso impactava a forma como essa população era vista e a autopercepção dessas pessoas, que, em muitos casos, acaba sendo empurrada compulsoriamente para a prostituição. Hoje, ocupando um espaço tão importante, sei da responsabilidade de ter me tornado uma dessas referências para pessoas historicamente marginalizadas, no sentido de confirmar que sim, podemos e devemos exercer os papéis que quisermos na sociedade, lutando pelo direito de existir, pela justiça social e pelos direitos humanos. Então, nessa caminhada o sentimento de responsabilidade é muito grande pois temos o desafio de fazer justiça social e este é um desafio que venho enfrentando dentro e fora do parlamento.
Portal Fausto Leite – Seu mandato é muito ligado aos direitos humanos, à população LGBTQIA+, à educação, à assistência social, à cultura, à saúde e às mulheres. Para quem ainda tenta reduzir sua atuação apenas à pauta identitária, como a senhora explica que direitos humanos não são pauta de nicho, mas política pública para o povo inteiro?
Linda Brasil – Quando defendemos direitos humanos, estamos falando de acesso à água, à saúde, à educação, ao trabalho digno, à assistência social, à cultura, à participação cidadã e ao combate às desigualdades. Direitos humanos não dizem respeito a uma pauta de nicho; são a base de uma sociedade mais justa e democrática. Trata-se de uma pauta transversal, que busca garantir dignidade e direitos a todas as pessoas, sempre sensível às desigualdades que permeiam a sociedade. Reduzir a nossa atuação a uma única pauta é parte de uma estratégia política que visa nos isolar e nos diminuir. Mantemos o nosso trabalho assíduo, combativo e comprometido com a população. Já protocolamos mais de 120 projetos de lei na Assembleia Legislativa de Sergipe, dos quais 32 foram aprovados. Aproveito para pedir às pessoas que acompanhem nosso trabalho pela TV Alese e que me sigam nas redes sociais, para conhecerem melhor o quanto temos lutado em favor das sergipanas e dos sergipanos. Quem nos acompanha sabe que todas as nossas propostas são construídas de forma coletiva, em diálogo permanente com os movimentos sociais, sindicatos e a sociedade civil organizada. Nosso mandato está comprometido com pautas reais, que nascem das necessidades da população e dão voz a quem historicamente foi pouco ouvido nos espaços de poder. Além da atuação legislativa, exercemos de forma firme o papel de fiscalização do Governo de Sergipe, sempre com o objetivo de garantir o respeito aos direitos da população. Temos cobrado soluções para problemas que impactam diretamente a vida dos sergipanos, como a crise hídrica agravada após a concessão dos serviços de abastecimento de água à Iguá, temos defendido os direitos dos trabalhadores e das trabalhadoras, lutado pelo fortalecimento dos serviços públicos e atuado na garantia de direitos das comunidades tradicionais e na proteção da agrobiodiversidade. Atualmente, presido a Comissão de Cidadania e Direitos Humanos da Alese, espaço por meio do qual promovemos diversas audiências públicas que ampliam o diálogo entre o poder público e a sociedade, contribuindo para a construção de políticas públicas com participação social efetiva.
Portal Fausto Leite – A senhora enfrentou muitos ataques, inclusive transfóbicos, e chegou a apresentar dossiê e formalizar denúncias às autoridades. Como é fazer política tendo que debater projeto, orçamento e governo, mas também tendo que se defender de preconceito, fake news e violência política?
Linda Brasil – É um grande desafio. Historicamente, a população LGBTQIAPN+ ocupa uma posição de vulnerabilidade social e segue sendo alvo de diversas formas de violência e discriminação. Como a primeira mulher trans a ocupar esse espaço na política em Sergipe, enfrento não apenas os desafios inerentes à atividade parlamentar, mas também a resistência de uma sociedade misógina, machista, estruturada na LGBTQIAPN+fobia, com uma política conservadora e em uma conjuntura marcada pela atuação antidemocrática da extrema-direita, que propaga discursos de ódio e estimula práticas de discriminação e violência contra as populações mais vulnerabilizadas. O trabalho acaba se intensificando na medida em que vamos ocupamos espaços de poder, assumindo um papel educativo e combativo na denúncia das mentiras, dos preconceitos, da desinformação e das violências, além de criar condições e caminhos para a construção de leis e políticas públicas que favoreçam o respeito, a verdade e a justiça social. Além disso, no que diz respeito à discussão das questões orçamentárias na Assembleia Legislativa, existe um sistema bastante evidente na Alese, que favorece as decisões do Governo de Sergipe. Sou a única parlamentar de esquerda na Casa Legislativa e fazemos oposição em um cenário no qual apenas três parlamentares compõem a bancada de oposição, com a responsabilidade de denunciar práticas lesivas e autoritárias adotadas pelo Estado e cobrar transparência, orçamento e diálogo para a efetivação de políticas públicas necessárias à população mais negligenciada. Por isso, mantemos uma atuação firme, combativa e permanente em defesa da população sergipana. Resumindo: é babado viver e trabalhar neste contexto que você trouxe, mas, ao mesmo tempo, sigo esperançosa. Ainda assim, me preocupo sim com a minha segurança e com a segurança de outras pessoas defensoras de direitos humanos. Tenho plena consciência do significado e da transformação que promovemos ao ocupar esses espaços. Nossa presença rompe barreiras, amplia representações e abre caminhos para que outras pessoas também possam sonhar e participar da política. Por isso, mesmo diante dos inúmeros ataques, das tentativas de silenciamento, das fake news, das inúmeras formas de violência e até das ameaças de morte. Sigo firme na luta, para vencermos este sistema capitalista que se estrutura no lucro, nas desigualdades sociais, na disseminação do ódio e na implantação do medo na população. É fundamental ganhar esta luta e termos uma mudança de mentalidade, precisamos avançar na direção de garantir um sistema de sociedade que se ocupe em que a economia trabalhe em favor da vida das pessoas, e não o contrário; um sistema que o Estado invista e se ocupe de combater preconceitos, servir à população, principalmente as pessoas vulnerabilizadas, e promover justiça social. Não nos silenciarão. Precisamos ampliar conquistas e fortalecer uma mudança de mentalidade que nos permita construir uma sociedade comprometida com a justiça social, compreendendo que a verdadeira segurança pública passa pela garantia de direitos e pela melhoria das condições de vida da população.
Portal Fausto Leite – Deputada, a senhora é conhecida por uma postura forte na oposição ao governo Fábio Mitidieri. Já criticou falas do governador, projetos enviados à Assembleia e cobrou mais diálogo. A senhora acha que o governo tem dificuldade de ouvir a oposição ou o problema é que Linda pergunta com o leque batendo e a resposta já chega suando?
Linda Brasil –Estamos diante de um governo que tem priorizado interesses particulares de seu grupo político, baseado em um modelo predatório de desenvolvimento. Ele socializa o prejuízo (a exemplo da falta de água) e privatiza o lucro em detrimento das necessidades da população. Essa lógica se reflete no sucateamento de equipamentos públicos, na terceirização e privatização de serviços essenciais e na precarização das condições de trabalho dos servidores e servidoras. O resultado é um impacto direto na vida das pessoas, que enfrentam dificuldades cada vez maiores para acessar serviços públicos de qualidade. Na Saúde, vemos o avanço da iniciativa privada sobre áreas estratégicas, enquanto problemas históricos permanecem sem solução. Na questão da água, a concessão dos serviços da Deso trouxe insegurança para milhares de sergipanos e sergipanas, culminando em uma crise hídrica sem precedentes em diversas regiões do estado. Apesar disso, o governo investe mais em propaganda do que em diálogo e soluções concretas. O problema não é a firmeza com que faço minhas cobranças, nem o leque que me acompanha na tribuna. O problema é um governo, que ao longo de quatro anos, combate e desmonta tudo o que é público, desvaloriza a carreira dos servidores e das servidoras em todas as pastas, desmonta os equipamentos públicos e os privatiza, não tem compromisso com a população mais vulnerável, não fomenta a participação da população nas esferas de poder e trabalha para as elites econômicas. Um governo que demonstra uma visão segundo a qual o Estado tem grupos que são “donos” dele e que, por isso, devem ser servidos ao invés de servir o povo. O que incomoda é que fazemos perguntas que representam as angústias da população, e não recebemos respostas à altura. Na tribuna, cumpro o meu papel de deputada, que é fiscalizar, denunciar irregularidades e cobrar transparência. Continuarei fazendo isso com responsabilidade, porque quem sente os efeitos da atuação desses supostos “donos”, da falta de planejamento, dos desmandos e da má gestão dos recursos públicos somos nós, o povo sergipano.
Portal Fausto Leite – Na Câmara de Aracaju e na Assembleia, a senhora entrou em debates polêmicos, bateu de frente com conservadores, enfrentou acusações sem prova, criticou o aumento de cargos na gestão municipal e cobrou coerência de quem antes dizia uma coisa e depois fez outra. A senhora gosta da briga política ou apenas não foge quando tentam empurrar a pauta para debaixo do tapete?
Linda Brasil – Tenho uma atuação combativa. Não fugimos ao debate e ao enfrentamento. Essas práticas são fundamentais para o fortalecimento da democracia e para impedir que práticas autoritárias e interesses particulares se sobreponham aos interesses da população. Atuamos com coerência e respeito ao processo democrático e à população sergipana.
Portal Fausto Leite – Fora da política, quem é Linda Brasil? O que a senhora gosta de fazer quando não está em sessão, reunião, protesto, audiência pública, rede social ou enfrentando alguma polêmica? Tem música, leitura, amigos, família, dança, silêncio, espiritualidade ou aquele momento em que o leque descansa e a pessoa respira?
Linda Brasil – Fora da política, sou uma pessoa que valoriza profundamente os afetos e os momentos de conexão com as pessoas que amo. Gosto de estar com minha família e sempre digo: minha mãezinha, Dona Carminha, prestes a completar 94 anos, é a maior representação de amor na minha vida. Dedicar tempo a ela, aos meus irmãos e irmãs, aos meus sobrinhos, às minhas sobrinhas e aos meus amigos é uma das formas que encontro para renovar minhas energias. A espiritualidade cristã, também ocupa um lugar muito importante na minha caminhada. Faço parte da Sociedade Maria Cristo, com o mentor espiritual Benjamim Teixeira de Aguiar, e os encontros que vivencio nesse espaço me proporcionam momentos preciosos de reflexão, autoconhecimento e fortalecimento interior. É uma fonte de inspiração que me ajuda a seguir minha missão com mais serenidade e propósito. Tenho ainda um carinho especial pelo cuidado com o jardim da Casa Linda Brasil. Regar, podar, plantar e acompanhar o crescimento das flores e das plantas são atividades que me conectam com a natureza e me oferecem momentos de paz em meio à intensidade da vida pública. É um exercício de cuidado que também me ensina sobre a paciência e a renovação. E, claro, gosto muito de estar entre amigos, compartilhar conversas, histórias, risadas e aprendizados. Também faço questão de me manter sempre informada, por meio de leituras, reportagens e, principalmente, do diálogo constante com pessoas que contribuem para o meu crescimento humano e político. São esses encontros, afetos e trocas que me ajudam a respirar, recarregar as energias e seguir em frente com esperança e determinação.
Portal Fausto Leite – Para encerrar, deputada: caso seja reeleita, qual será a prioridade do próximo mandato? O que Linda Brasil ainda quer entregar para Sergipe, e que mensagem a senhora deixa para o eleitor que talvez discorde de alguma pauta sua, mas reconhece sua coragem, sua preparação e sua presença firme na Assembleia Legislativa?
Linda Brasil – Estou focada no meu mandato. Cumprindo com a minha missão, trabalhando pelos sergipanos e sergipanas cotidianamente, na Alese. Caso seja reeleita quero continuar trabalhando para que as leis funcionem efetivamente, incluindo as que aprovamos de minha autoria. Aproveito o espaço para estimular que a leitora e o leitor acompanhem nossas redes e nos siga no @lindabrasilse. Temos leis como a que institui o Dossiê da Mulher Sergipana; a de combate ao machismo e de estímulo ao protagonismo feminino nas escolas; a de combate ao racismo e a intolerância religiosa (Abril Verde); as relacionadas às pessoas com fibromialgia; as voltadas aos pequenos agricultores; e a legislação relacionada ao parto humanizado e às doulas, para citar algumas. Também quero aprofundar nossa fiscalização e a cobrança de transparência na aplicação dos recursos públicos. Quero continuar lutando ao lado do povo para uma sociedade justa, com os recursos públicos sendo aplicado em benefício da população, dentro de uma lógica de valorização do serviço público, e não de seu sucateamento e privatização. Sou pré-candidata a deputada estadual, estando à disposição do meu partido, o PSOL, e da sociedade para a construção de um projeto que possa lutar por dignidade para a população. Deixo um convite para que venham construir conosco um novo projeto de sociedade. Entrem em contato, por meio das nossas redes sociais, para saber mais sobre o PSOL e sobre o que temos feito. Vocês também podem enviar ideias, denúncias e perguntas pelo nosso WhatsApp: (79) 3023-2268.




