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LOTAJU: entre a aposta política e o vício social

A Câmara de Vereadores de Aracaju decidiu abrir oficialmente as portas para a jogatina institucionalizada, batizando a proposta com o nome simpático de LOTAJU, como se isso bastasse para encobrir o risco embutido. Mas o que se viu na sessão que aprovou a criação da loteria municipal foi muito mais que um projeto de arrecadação, foi uma roleta russa moral e política.

Enquanto especialistas no país inteiro discutem os impactos do vício em apostas, enquanto CPIs investigam o rastro de destruição deixado pelas bets, 14 vereadores preferiram olhar para o outro lado e apertar o botão da arrecadação fácil. O discurso da “modernização” virou capa para uma escolha arriscada: transformar uma cidade cheia de urgências sociais em território fértil para o endividamento popular.

O projeto chegou atropelando o debate, com substitutivo em cima da hora, rejeição de emendas que protegiam contra as armadilhas digitais e uma base governista disposta a passar o trator. A emenda que vetava as bets? Derrubada. O cuidado com jogos de resultado imediato? Ignorado. Falaram que não era cassino, mas deixaram a porta escancarada pro vício entrar com tapete vermelho.

Do outro lado, uma minoria combativa tentou segurar o avanço do projeto. Fizeram alertas técnicos, emocionais e éticos. Mas perderam. Não no argumento, e sim na matemática fria das votações. No fim, o que deveria ser um debate sobre saúde pública, regulação e responsabilidade virou um bingo legislativo, onde cada voto favorável foi um número sorteado pelo lobby da arrecadação.

Agora a bola está com a prefeita Emília Corrêa. Vai sancionar o jogo ou vetar essa cartada perigosa? Porque uma coisa é certa: quem perde nessa aposta não é o vereador nem o prefeito, é a população vulnerável que, no desespero, vê no bilhete premiado a única chance de sair do sufoco. A seguir, você confere quem votou com a consciência e quem preferiu apostar no lucro.

Isac Silveira (autor do projeto) – Líder do governo e dono do bilhete premiado da sessão. Jogou suas fichas na LOTAJU com discurso de modernização e arrecadação, mesmo sob chuva de críticas. Rejeitou emendas que poderiam proteger a população dos vícios e bateu na tecla de que “o jogo já existe”. Ganhou a votação, mas perdeu pontos com os mais conscientes.

Rodrigo Fontes, Iran Barbosa, Camilo Daniel, Selma França, Levi Oliveira, Bigode do Santa Maria, Sávio Neto de Vardo, Anderson de Tuca, Sgt. Byron, Binho, Maurício Maravilha, Joaquim da Janelinha e Breno Garibalde – Votaram a favor do projeto como ele veio, sem os filtros necessários. Alguns, como Breno e Sávio, até tentaram parecer equilibrados ao votar contra as bets, mas no fim mantiveram o combo completo da jogatina.

Lúcio Flávio – Foi um dos mais técnicos na crítica. Apontou vício de origem do projeto, lembrou que o STF nem decidiu se isso é legal e ainda denunciou a hipocrisia: “falam que não é bet, mas rejeitam o trecho que diz que não é”. Chamou o blefe. Merece um prêmio pela coerência.

Elber Batalha – Fez o que se espera de um vereador atento: apresentou emendas, exigiu limites, denunciou a pressa do trâmite. Viu sua emenda ser derrubada, mas saiu da sessão como um dos poucos que tentou jogar limpo.

Fábio Meireles – Tocou num ponto crucial: saúde pública. Relatou caso pessoal de vício em jogos e fez um apelo legítimo à razão. Lembrou que a prefeita Emília poderia ter evitado o desgaste. Foi um voto de humanidade numa roleta de interesses.

Thannata da Equoterapia – Defendeu o tema como questão de saúde mental. Sua fala foi uma das mais empáticas da sessão. Mostrou que o problema não é “diversão”, é dependência, é colapso familiar, é tragédia social disfarçada de aposta.

Pastor Diego – Com postura firme, fez coro às emendas protetivas e manteve voto contrário. Não se deixou levar por argumentos de arrecadação. Para ele, moral pública ainda vale mais que verba de bilhete.

Alex Melo e Moana Valadares – Votaram contra o projeto e a favor da emenda. Moana fez discurso forte: “não vamos fortalecer um problema que já existe”. Coerência rara. Alex foi firme no voto, mesmo sem fazer discurso mais extenso.

Omissões e apostas erradas – A derrubada da emenda que proibiria as bets esportivas escancarou a contradição de quem dizia que “não era bet”. Quando a chance de proteger a população apareceu, dez vereadores preferiram o silêncio conivente. Fica a pergunta: quem lucra com esse tipo de “desatenção”?

Resultado final: 14 vereadores a favor da criação da LOTAJU, 7 contra. A roleta girou — agora é a população que vai pagar a conta.E agora? O projeto segue para a sanção ou veto da prefeita Emília Corrêa. Vai jogar junto com a base ou assumir o desgaste de vetar o brinquedo novo da arrecadação?

Notas do Pequeno Expediente – Câmara de Aracaju (18/06/2025)

Quem cobrou, quem elogiou e quem jogou a real

Fábio Meireles (PDT) – Começou a fala com sensibilidade social: exibiu vídeo da ONG Olhar Carinhoso promovendo o 1º São João para crianças autistas, e anunciou nova edição do Sopão Solidário no bairro Santos Dumont. Mostrou que, além de cobrar, também reconhece acertos: parabenizou a Iguá e o Governo do Estado após intermediar solução para moradores do Loteamento Moema Meire, que estavam há 18 dias sem água. Mas não deixou a SMTT passar batida: cobrou fiscalização sobre ônibus com mais de 12 anos em circulação. Discurso equilibrado entre denúncia, reconhecimento e pressão.

Iran Barbosa (PSOL) – Foi direto ao ponto: criticou a convocação insuficiente de aprovados no concurso da Prefeitura. Usou o exemplo de Pedagogia (305 vagas no edital, apenas 69 convocados) para mostrar que a educação está ficando no banco de reservas enquanto o déficit cresce em campo. Cobrou celeridade e respeito ao serviço público, com ênfase na necessidade de substituir contratações precárias por concursados. Discurso técnico, com foco em educação e justiça social.

Lúcio Flávio (PL) – Subiu o tom contra a empresa Iguá e a Deso, reclamando da falta de retorno às demandas e cobrando que representantes da Iguá apareçam na Câmara para dar satisfação à população. Cutucou com precisão ao comentar que o colega Fábio Meireles teve “prioridade” no atendimento, o que reforça a crítica do governador Fábio Mitidieri sobre existirem dois tipos de vereadores: os atendidos e os ignorados. Também citou a reunião com a prefeita Emília Corrêa, onde aliados do governo estadual tentaram passar a imagem de respeito institucional — mas ele deixou no ar a dúvida se é só fachada. Por fim, reafirmou voto contra a LOTAJU, alegando que o modelo repete os erros da loteria estadual e “tira dinheiro do povo”.

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