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Lula: “Eu não sou de esquerda”

Lula agora diz que nunca foi esquerdista. É uma frase tão ousada que nem o próprio espelho dele deve ter conseguido sustentar a imagem por muito tempo. É como Lula acordar, olhar para si mesmo e repetir: “eu sou Bolsonaro, eu sou Bolsonaro, eu sou Bolsonaro”. Não é conversão ideológica. É teatro. É a velha tentativa de trocar a biografia na porta do evento internacional, como quem troca o paletó antes de entrar no salão dos ricos.

O problema de Lula é que a história tem memória. Ele nasceu politicamente no sindicalismo, fundou o PT, foi carregado pela militância de esquerda, governou com a estrela vermelha no peito, nomeou quadros da esquerda, discursou contra as elites e se vendeu durante décadas como voz dos trabalhadores contra o sistema. Agora, diante do mundo elegante, tenta posar de centro, de moderado, de homem acima das ideologias. Só faltou dizer que nunca viu uma bandeira vermelha na vida.

É uma mentira atrás da outra, mas dita quase em voz baixa, como quem pede para a realidade colaborar e não fazer escândalo. Nem o povo, nem a militância, nem talvez o próprio Lula parecem acreditar muito nessa ginástica. Um dia é o operário perseguido. No outro, o estadista global. Na eleição, o candidato da esquerda. No G7, vira um turista do meio-termo, tentando passar pela imigração da própria biografia com passaporte vencido.

A contradição fica tão escancarada quando se lembra de Flávio Dino que quase pede legenda para deficientes de paciência. Lula indicou ao Supremo um ministro com trajetória comunista e ainda comemorou como quem bota troféu na estante da sala. Para a base, ele mostra a esquerda igual camisa autografada: “olha aqui, companheirada, tá tudo em casa”. Para o mercado, para os líderes estrangeiros e para os salões acarpetados, ele esconde a esquerda como visita indesejada quando chega gente chique: “entra ali no quarto e não faz barulho”.

Lula não está negando apenas uma palavra. Está negando a própria origem política. Está tentando convencer o Brasil de que o personagem que disputou eleições pelo PT, liderou a esquerda por mais de quarenta anos e governou com apoio sindical, social e militante, na verdade nunca foi aquilo que todo mundo viu. É quase um insulto à inteligência pública. Uma coisa é dizer que amadureceu. Outra é tratar a população como se tivesse amnésia coletiva.

No fim, essa frase revela menos uma mudança de pensamento e mais um vício antigo: Lula fala o que precisa falar para cada plateia. Para a militância, é vermelho. Para o exterior, é cinza. Para o eleitor pobre, é pai dos pobres. Para o mercado, é gestor responsável. Para a história, quer ser tudo ao mesmo tempo. Mas ninguém consegue ser tudo sem, em algum momento, virar nada. Lula pode até tentar negar a esquerda. Só não consegue impedir que a esquerda inteira, com recibo, foto, palanque e legenda, continue pendurada no pescoço dele.

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