O improvável aconteceu: Lula e Donald Trump conversaram por meia hora de cordialidade política, um raro momento em que o petista e o republicano decidiram jogar o jogo da diplomacia — ainda que cada um pensando em seus próprios eleitores.
Segundo o Planalto, o papo foi “amistoso”. Pois é. Amistoso, mas com um tarifaço de 50% nas costas do agronegócio brasileiro e com Marco Rubio — aliado de Bolsonaro e algoz de Moraes — escalado por Trump para negociar o futuro econômico entre os dois países. Um roteiro digno de série política, mas sem roteirista que dê conta do cinismo.
Rubio entra em cena: o ‘negociador’ que odeia negociar com o Brasil

A escolha de Marco Rubio como emissário americano tem a sutileza de uma marreta. O homem é conhecido por sua linha dura contra o governo brasileiro e foi justamente ele quem articulou as sanções contra Alexandre de Moraes com base na Lei Magnitsky.
Agora, ironicamente, será o responsável por conversar com Geraldo Alckmin, Mauro Vieira e Fernando Haddad — os mesmos que ele acusava de “atacar a democracia americana”. Lula, pragmaticamente, finge não lembrar. Afinal, o que vale agora é tentar revogar a sobretaxa de 40% sobre produtos brasileiros que Trump impôs como punição comercial.
O Planalto tenta vender o encontro como o início de um “recomeço” diplomático. Mas convenhamos: chamar de “recomeço” uma negociação conduzida por alguém que já quis punir metade do STF brasileiro é, no mínimo, ousado.
O tarifaço que torrará o café e o humor do agro
Os efeitos do tarifaço de Trump batem direto no coração do agronegócio brasileiro, base econômica e política que o governo Lula tenta reconquistar.
O café, principal produto exportado aos EUA, foi o mais atingido: o preço pode saltar de US$ 15,99 para quase US$ 24 por libra, um golpe que pode derrubar exportadores e inflacionar a cadeia inteira.
Entre quase 700 produtos tarifados, só o suco de laranja escapou parcialmente, com uma taxa “amigável” de 10%. Já carne, pescado e mel continuam sendo espremidos por uma sobretaxa total de 50%.
Ou seja: os EUA continuam ganhando, o Brasil continua pagando — e o agronegócio, que sempre achou que tinha mais amigos em Washington do que em Brasília, agora sente o gosto amargo da política comercial americana.

Tom afável, zero Bolsonaro e uma pitada de ironia
Curiosamente, Trump foi descrito como “afável e até carinhoso” durante a ligação. Nada de bravatas, nada de “fake news”, nada de Bolsonaro. Aliás, nenhuma menção ao ex-presidente brasileiro, nem a Alexandre de Moraes, apesar de Lula ter pedido a retirada das sanções contra autoridades nacionais.
Num momento quase de humor, os dois octogenários trocaram piadas sobre idade.
Trump garantiu: “Estou mais forte do que quando tinha 40”.
Lula respondeu: “Também me sinto assim, Donald”.
Risos diplomáticos. O tipo de conversa que serve mais para foto do que para resultado.
“Encontro em breve” e a política do improviso
No fim, Lula e Trump concordaram em se encontrar pessoalmente “em breve” — talvez na Cúpula da ASEAN, na COP30 em Belém ou nos Estados Unidos.
Trump afirmou publicamente que o papo foi “muito bom” e que há chance de visita ao Brasil.
O governo brasileiro corre para transformar esse “muito bom” em algo concreto: a retirada das tarifas e o destravamento das relações comerciais, que vinham em clima de guerra fria econômica. Haddad classificou o diálogo como “positivo”. Alckmin foi além: disse que foi “melhor do que esperávamos”.
Mas sejamos sinceros: quando Trump sorri, é bom conferir o bolso.
A foto que vale mais que o resultado
No fundo, o que a videoconferência mostrou foi a disposição de Lula em se sentar à mesa com quem for preciso — mesmo que o parceiro de conversa seja alguém que admirava Bolsonaro e tentou sancionar ministros brasileiros.
É diplomacia realista, pragmática e, claro, carregada de ironia política.
O agro sofre, o Planalto sorri, e Trump joga xadrez eleitoral com o Brasil como peão.
Resta saber se Rubio — o novo negociador — virá disposto a construir pontes ou cavar valas.
Por enquanto, é tudo cordialidade e boas intenções. Mas boas intenções, na política, costumam ser o primeiro passo rumo ao próximo conflito.
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📚 Fontes principais:
G1, CNN Brasil, BBC, Agência Brasil, CartaCapital, Estadão, Veja, Gazeta do Povo, UOL, Planalto.




