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Luz amarela na UFS: um chamado à responsabilidade

A Universidade Federal de Sergipe atravessa uma das fases mais delicadas de sua história recente. O que antes era uma instituição reconhecida por sua resiliência mesmo em cenários adversos, como no auge da pandemia, agora dá sinais claros de desorganização administrativa, ausência de planejamento e, sobretudo, de falta de protagonismo da gestão diante de uma crise que exige firmeza, clareza e ação institucional consistente.

Nos últimos dias, mais de 80 trabalhadores terceirizados foram demitidos, sob a justificativa de restrições orçamentárias. São profissionais que desempenham funções essenciais, da limpeza à segurança, da manutenção ao suporte logístico do funcionamento cotidiano dos campi. Não se trata apenas de uma estatística. Trata-se de dezenas de famílias que perderam sua fonte de renda, de uma engrenagem que paralisou setores inteiros e, acima de tudo, de um retrocesso na política de respeito social que a própria universidade sempre defendeu.

A justificativa da atual gestão para as demissões foi a chamada “falta de recursos”. No entanto, o orçamento da UFS para 2025 é R$ 20 milhões superior ao do ano anterior. A pergunta é inevitável: o que mudou, então? Se no passado recente, mesmo em momentos de severa restrição, foi possível manter os postos de trabalho e preservar a estrutura de apoio da universidade, por que agora, com orçamento ampliado, as demissões ocorreram em massa?

A resposta talvez esteja menos na escassez de recursos e mais na forma como se escolhe gerenciar a escassez. Durante a pandemia, a antiga reitoria declarou abertamente que preferia reduzir despesas operacionais, como desligamento de aparelhos de ar-condicionado, a comprometer o sustento de famílias terceirizadas. Hoje, falta não só uma diretriz clara de prioridades, como também um compromisso visível com os princípios mais básicos da função pública: proteger os mais vulneráveis e manter a instituição funcional.

A publicação da Portaria 0974, que estabelece uma série de restrições internas e transfere integralmente a responsabilidade da crise ao Ministério da Educação, é um documento que preocupa. Ele não apenas representa um gesto de fragilidade institucional, como também sinaliza uma tentativa de isenção de responsabilidade local, deslocando todo o peso da situação para fatores externos.

E não bastasse a postura evasiva no papel, a conduta da gestão também tem sido questionada nos bastidores de Brasília. Em momento decisivo, quando o ministro da Educação, Camilo Santana, convocou reitores de universidades federais para debater e anunciar uma recomposição orçamentária, o reitor da UFSoptou por não comparecer. Em seu lugar, compromissos locais de agenda foram priorizados, inclusive com organizações que tratam de proteção animal. Embora se trate de uma pauta legítima, é absolutamente inadequado colocar esse tipo de reunião à frente de uma discussão direta com o governo federal sobre recursos que afetam toda a universidade.

Ao mesmo tempo, representantes sindicais e entidades ligadas à UFS vêm se manifestando publicamente nos meios de comunicação sobre o risco de paralisação das atividades, sem que até o momento a reitoria tenha se pronunciado de forma contundente ou transparente para a sociedade. A ausência de comunicação oficial é um agravante. Em contextos de crise, o silêncio da liderança não é prudência: é omissão.

É evidente que o subfinanciamento das universidades federais é um problema real, crônico e estrutural. A recomposição de R$ 400 milhões anunciada pelo governo federal, embora bem-vinda, ainda está distante dos R$ 1,3 bilhão que a ANDIFES estima como necessário para garantir o funcionamento mínimo das instituições. No entanto, a carência de recursos não justifica a desarticulação administrativa. Uma universidade pública deve reagir com organização, planejamento e capacidade de diálogo, e não com retração, culpabilização externa e demissão em massa.

A UFS precisa urgentemente retomar o caminho da liderança responsável, da transparência com sua comunidade e da eficiência institucional. A crise não será resolvida com portarias de autodefesa, com ausências em reuniões estratégicas ou com cortes que atingem diretamente os mais frágeis da estrutura.

O que se espera de uma reitoria é exatamente o contrário disso: presença, ação, responsabilidade e coragem para enfrentar os desafios com compromisso e dignidade. Enquanto essa postura não for adotada, continuará crescendo o sentimento de que a UFS está à deriva. E não será o MEC o único culpado por isso.

Uma resposta

  1. A crise da UFS não é puramente orçamentário. Publiquei, no portal do Jornalista Jozailto Lima, o texto de minha autoria:

    AS TRÊS ONDAS DE UM ANTIMODELO DE UNIVERSDADE PÚBLICA. UFS, ADSUMUS!

    Nele descrevo a gravidade da crise acadêmica da UFS e suas consequências.

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