O presidente da Federação Sergipana de Futebol, Milton Dantas, decidiu fazer aquilo que muita gente evita quando a bola para de rolar: falar com clareza. Depois dos rebaixamentos de Confiança e Itabaiana para a Série D, Miltinho rejeitou a tentativa apressada de transformar duas quedas em velório coletivo do futebol sergipano. A Federação organiza campeonatos, sustenta calendário, investe nas categorias de base e abre caminhos para os clubes chegarem às competições nacionais. Não entra em campo, não escala atacante e, até onde se sabe, ainda não aprendeu a cobrar pênalti. Colocar toda a culpa em sua mesa seria apenas procurar um endereço conveniente para entregar uma conta produzida em outro lugar.
O recado mais duro foi dirigido à SAF do Confiança. O novo comando chegou cercado de prestígio, dinheiro anunciado e currículo de primeira divisão, liderado por Rodolfo Landim, ex-presidente do Flamengo. Parecia que o Dragão receberia turbina, GPS e combustível para subir. Sete meses depois, terminou na lanterna da Série C, com apenas 13 pontos, e descobriu a estrada da Série D. Milton foi preciso ao lembrar que uma construção de quase dez anos não poderia ser desmontada em tão pouco tempo. A SAF chegou prometendo até R$ 500 milhões em uma década, mas, no primeiro capítulo, entregou um rebaixamento. O cofre era de gigante. A tabela, infelizmente, não recebeu o memorando.
Miltinho também tocou numa ferida que o futebol corporativo costuma esconder debaixo de apresentações coloridas: a arrogância. Itabaiana, Sergipe e o antigo comando do Confiança sempre dialogaram com a Federação, inclusive nos momentos mais difíceis. A nova administração, segundo ele, desembarcou tratando Sergipe como se ninguém por aqui soubesse distinguir uma bola de um balancete. Preferiu a distância, desprezou a experiência local e apostou que o crachá empresarial resolveria tudo sozinho. O campo respondeu com a sinceridade habitual. No futebol, currículo não marca gol, PowerPoint não salva chute no canto e promessa de investimento não soma ponto na classificação.
Milton Dantas merece reconhecimento pela administração firme da Federação e, principalmente, pela coragem de colocar cada responsabilidade no lugar certo. Sob seu comando, o futebol sergipano mantém competições organizadas, calendário ativo, presença nacional e trabalho de formação, mesmo convivendo com clubes de orçamento limitado. A Federação não pode ser transformada em para raios de decisões tomadas dentro das diretorias. Quem recebeu o Confiança na Série C possui a obrigação esportiva e moral de devolvê-lo, no mínimo, ao mesmo lugar. Miltinho não decretou guerra, apenas recusou carregar uma culpa que não lhe pertence. E fez isso com a autoridade tranquila de quem conhece o futebol sergipano por dentro, administra com presença e sabe que, antes de anunciar milhões, convém aprender a somar pontos.




