Se tem algo que a política de Aracaju gosta é de confundir nome, trocar apelido e criar novela antes mesmo do elenco estar fechado. E nesse roteiro da presidência da Câmara, muita gente já se perdeu no capítulo inicial. Então vamos organizar a casa. O governador Fábio Mitidieri foi clássico, cirúrgico e absolutamente correto: não é hora de discutir presidência da Câmara. O recado foi direto, sem firula e sem entrelinha exagerada. O grupo precisa estar unido, focado e disciplinado para o objetivo central, que é a reeleição do governo do Estado. Qualquer debate fora desse eixo só serve para criar ruído, vaidade antecipada e desgaste desnecessário.
Do outro lado do tabuleiro, o ex-deputado André Moura também fez exatamente o que se espera de quem joga em campo grande. Não entrou em polêmica, não falou em presidência de Câmara, não estimulou disputa interna. André está olhando para 2026 com foco total no Senado. Quem tenta empurrar André Moura para esse embate está mais interessado em criar conflito do que em analisar a realidade. Até aqui, André segue sereno, estratégico e absolutamente concentrado no que lhe interessa de verdade.
Agora, quando a lupa se aproxima da Câmara, o jogo começa a ganhar contornos mais interessantes. Nitinho do Vale e Miltinho Dantas são dois vereadores distintos, com histórias diferentes, mas que agora passam a orbitar o mesmo centro de gravidade. Nitinho não é novato. Já foi presidente da Câmara. Conhece o caminho, conhece o rito, conhece o jogo. Quer voltar? Claro que quer. Isso é legítimo, faz parte do currículo e da ambição natural de quem já ocupou o posto. Mas a política também ensina uma regra básica: saber quando liderar e quando apoiar também é poder. E é exatamente aí que entra Miltinho Dantas.
Miltinho surge como um nome que agrada justamente por não forçar a barra. É leve, transita bem em todos os ambientes, conversa com a prefeitura, conversa com o governo do Estado, conversa com colegas da Câmara e, talvez o mais importante, não compra briga desnecessária. Miltinho não é do embate. É do diálogo. Não é do enfrentamento. É do convencimento. Diante desse cenário, não é absurdo, nem improvável, nem incoerente imaginar que, numa composição madura, Nitinho possa apoiar Miltinho Dantas. Não como derrota, mas como estratégia. Não como recuo, mas como leitura de momento. Política não é só ganhar cargo, é saber permanecer relevante.
Enquanto Isaac Silveira representa o perfil mais duro, mais combativo, mais afeito ao confronto direto, Miltinho representa o oposto: paciência, leveza e capacidade de agregação. E em uma Câmara cada vez mais independente, fortalecida pelas emendas impositivas e menos sujeita a comandos verticais, esse perfil conciliador começa a pesar muito. Se a disputa se afunilar entre Isaac e Miltinho, os votos da oposição, Camilo Daniel, Sônia Meire e Professor Irã Barbosa, passam a ser decisivos. E quando esses votos entram no jogo, a eleição deixa de ser simples matemática partidária e vira engenharia política fina.
É exatamente por isso que Fábio Mitidieri não quer esse debate agora. Não é insegurança, é método. Se 2026 vier com vitória no governo, o peso político muda. O ambiente muda. A conversa muda. Antecipar esse embate agora só interessa a quem quer testar força antes da hora ou criar rachaduras artificiais no grupo.
No fim das contas, o cenário mais inteligente começa a se desenhar assim: Netinho do Vale, experiente, sabendo a hora de jogar; Miltinho Dantas, leve, agregador e cada vez mais viável; Isaac, firme, mas com resistência natural em alguns setores; e um governador dizendo, com todas as letras, que a prioridade não é a cadeira da Câmara, mas o projeto maior. Quem insiste em transformar isso numa guerra aberta está lendo manchete demais e bastidor de menos. A política, por enquanto, segue no modo composição. E quem souber trocar o cavalo na hora certa chega mais longe do que quem insiste em correr sozinho.




