O Brasil chega à reta decisiva de 2026 com a elegância de quem entra numa festa de gala tropeçando no próprio tapete. De um lado, o Supremo mergulhado numa crise que já não cabe em nota oficial; de outro, o Senado praticando aquela antiga modalidade brasiliense de observar o incêndio enquanto discute quem ficará com a mangueira. Quando ministros, procuradores, senadores e investigadores começam a explicar uns aos outros por que estão certos, o cidadão percebe que a República virou uma reunião de condomínio em que ninguém quer pagar a taxa extra.
Alexandre de Moraes tornou-se o epicentro da tempestade, mas seria infantil fingir que todo o problema cabe numa toga. O Supremo precisa responder, o Ministério Público precisa investigar sem escolher amigos e o Senado precisa lembrar que Constituição não é peça decorativa de gabinete. Davi Alcolumbre, por sua vez, terá de decidir se preside o Senado ou administra a fila de conveniências de Brasília. Democracia não funciona no sistema “meu amigo não, o seu pode”. Instituição forte é aquela que suporta investigação sem desmaiar no carpete.
A crise judicial, naturalmente, já desembarcou na eleição com malas, assessores e espaço reservado no palanque. Lula tenta manter distância do incêndio, como quem passa pela cozinha dizendo que não sentiu cheiro de fumaça. Flávio Bolsonaro procura transformar cada nova revelação em combustível eleitoral, embora também precise torcer para que o tanque não tenha vazamento do próprio lado. No meio dessa guerra, cresce o eleitor que olha para os dois polos, suspira fundo e pergunta se não existe uma terceira opção que venha sem manual de instruções e sem processo anexo.
Enquanto Brasília briga para saber quem pode investigar quem, existe um personagem silencioso assistindo a tudo: o boleto. A situação fiscal continua apertada, os juros seguem pesados, as famílias acumulam dívidas e a economia dá sinais de cansaço. Governo algum revoga matemática por decreto, embora Brasília tente isso desde a inauguração. Gastar sem limite pode render discurso bonito, inauguração e aplauso de plateia amiga; depois chegam juros, inflação, crédito caro e o gerente do banco perguntando se o país gostaria de parcelar a irresponsabilidade em 48 vezes.
O vencedor da eleição encontrará uma cadeira presidencial com menos conforto do que aparenta. Receberá um Congresso fragmentado, uma economia pressionada, famílias endividadas e um Judiciário obrigado a explicar por que fiscaliza todo mundo, mas demonstra certa alergia quando o holofote se volta para dentro. Não bastará prometer emprego, prosperidade, moralidade, felicidade e talvez chuva no semiárido. O eleitor começa a descobrir que slogan não paga supermercado, guerra cultural não reduz juros e vídeo de rede social ainda não conseguiu tapar buraco em rodovia.
O país não precisa escolher entre respeitar o Supremo e investigar ministros, entre defender políticas sociais e controlar gastos, ou entre democracia e responsabilidade. Essas falsas escolhas são o truque mais antigo de Brasília: quando a pergunta fica difícil, inventa-se outra mais conveniente. O Brasil precisa de instituições que aceitem limites, governantes que saibam fazer contas e candidatos que tratem o eleitor como adulto. Porque, entre a toga, a urna e o boleto, alguém acabará pagando a conta — e, como quase sempre acontece por aqui, dificilmente será quem fez o pedido




