Paulo Gonet aparece numa foto em Londres, de charuto na mão, ao lado de Daniel Vorcaro. Ele diz que foi um encontro casual e nega amizade ou interferência no caso Master. Pode ser. Fotografia não é sentença. Mas convenhamos: quando o chefe do Ministério Público vira personagem de uma cena dessas e seu nome aparece em mensagens examinadas pela Polícia Federal, o brasileiro espera mais do que um “não é nada, pode circular”. O charuto apagou em Londres; em Brasília, a fumaça ainda está atrapalhando a vista de quem tenta enxergar uma explicação convincente.
A favor de encerrar a possibilidade de investigação votaram Francisco Sanseverino, Celso de Albuquerque Silva, Alexandre Camanho de Assis, Hindenburgo Chateaubriand e Nicolao Dino. Ana Borges Coelho Santos, Janice Ascari, José Adonis Callou de Araújo Sá e Samantha Chantal Dobrowolski queriam aprofundar o exame. Nicolao, irmão do ministro Flávio Dino, presidiu a sessão e deu o último voto. Tem carreira própria no MPF, e seu parentesco não prova interferência de ninguém. Seu voto, porém, fez o 5 a 4. O dado interessa ao público, assim como interessariam os nomes e os argumentos se o investigado em potencial fosse um prefeito de cidade pequena, daqueles que o Ministério Público costuma chamar para explicar até a compra do cafezinho.
O Conselho Superior do MPF teve a chance de designar um subprocurador para aprofundar a apuração. Preferiu fechar essa porta por 5 a 4. Se fosse campeonato, Gonet teria vencido no último minuto, com a defesa tirando a bola em cima da linha. Mas apareceu também um vistoso 9 a 0 no noticiário, ótimo para quem só lê manchete entre um café e outro. A unanimidade dizia respeito a outra pergunta: se cabia ao conselho decidir sobre a suspeição ou o impedimento de Gonet nos processos do Supremo. Na pergunta sobre investigar mais, houve divisão. Confundir os dois placares é fazer o cidadão de bobo com calculadora e tudo.
O relator concluiu que faltavam elementos mínimos para a investigação solicitada, e Gonet apresentou sua defesa. São posições que merecem registro. Agora experimente explicar ao brasileiro por que quatro integrantes do próprio conselho viram motivo para apurar mais e cinco acharam melhor parar ali. O MPF, fiscal da lei para o país inteiro, conhece muito bem o valor de uma diligência quando quer esclarecer a conduta alheia. Quando a dúvida chega à sala do chefe, a régua parece ficar tão curta que cabe dentro de uma caixa de charutos. A crítica é a essa escolha institucional: diante de uma controvérsia que atinge sua credibilidade, o conselho optou pela resposta que exige menos verificação.
Gonet não foi condenado, e o placar não demonstra que tenha cometido crime. Também não recebeu um certificado de inocência assinado pelos nove conselheiros. Recebeu uma decisão apertada que impediu o aprofundamento da apuração pedida. Se o MPF quer saber quem ainda confia na Procuradoria, pode começar oferecendo ao público os fundamentos completos dos votos e uma explicação sem truque de placar. Porque confiança não nasce de anunciar “unanimidade” em voz alta enquanto o 5 a 4 passa discretamente pela porta dos fundos. E o brasileiro, já bastante treinado em assistir a esse espetáculo, sabe reconhecer quando tentam vender fumaça pelo preço de transparência.




