Durante anos, Valmir de Francisquinho foi tratado como capítulo encerrado da política sergipana. Um nome forte que perdeu o governo em 2022, saiu do jogo no meio da partida e passou a ser citado sempre no passado, acompanhado daquele carimbo sonoro de rádio FM dizendo que ele não podia mais nada. Inelegível. Fora do tabuleiro. Caso encerrado. Só esqueceram de avisar à política brasileira que ela não gosta de finais fechados.
O caso começa antes da bomba estourar. Valmir foi absolvido em primeira instância. O processo seguiu seu curso normal e, antes que o recurso chegasse ao plenário do Tribunal de Justiça de Sergipe, a defesa, conduzida pelo advogado Evânio Moura, optou por um caminho que vinha sendo usado com naturalidade em Sergipe e no Brasil, o Acordo de Não Persecução Civil. Instrumento previsto em lei, aceito pelo Ministério Público e homologado pelo TJ/SE, nos últimos anos em dezenas de casos envolvendo prefeitos, deputados, presidentes de câmaras e agentes públicos, muitos deles em situações bem mais delicadas do que a de Valmir.
Mas com Valmir o roteiro mudou. O Tribunal de Justiça de Sergipe decidiu não homologar o acordo. Salvo engano, foi a primeira vez que uma decisão desse tipo produziu um efeito político tão drástico no Estado, ou ao menos uma das raríssimas exceções em um histórico recente marcado pela homologação tranquila de acordos semelhantes. O impacto foi imediato. Valmir foi retirado do jogo por quatro anos. Inelegível. Fora da disputa. Um Pato abatido no meio da lagoa, enquanto os girinos continuavam nadando sem maiores sobressaltos.
Aquela decisão não morreu ali. Em 2022, Valmir havia sido o candidato mais votado no primeiro turno, com quase meio milhão de votos, à frente de Rogério Carvalho e de Fábio Mitidieri. Depois veio o roteiro que até hoje o eleitor comum não entende direito. Entrou elegível. Saiu inelegível. Pouco depois de deixar a corrida, voltou a ficar elegível. Para quem está fora do mundo jurídico isso não parece rito processual. Parece roleta. E roleta não combina muito com democracia.
E então chegou o dia 30. Brasília apertou o botão do replay e o jogo virou. Em decisão liminar, o Superior Tribunal de Justiça suspendeu os efeitos das condenações impostas pelo Tribunal de Justiça de Sergipe e devolveu a Valmir de Francisquinho aquilo que na política vale mais que mandato, os direitos políticos. Não é absolvição definitiva. Não encerra o processo. Mas tem efeito imediato. É VAR jurídico funcionando. É jogo reaberto. Valmir, o Pato, que estava dado como abatido, saiu da água, sacudiu as penas e voltou oficialmente para a disputa.
O efeito foi instantâneo. Grupos políticos ferveram. Conversas mudaram de tom. Gente que tratava Valmir como passado passou a chamá-lo de presente. Na oposição, o sorriso foi automático. No governo, o silêncio ficou mais longo. O Pato voltou à lagoa e a água se mexeu. Em Sergipe, quando a água se mexe, ninguém finge que não viu.
Valmir não voltou como novidade. Voltou como memória viva. Como o candidato mais votado do primeiro turno de 2022 que saiu do jogo por uma engenharia jurídica que nunca desceu redonda para muita gente. O STJ não declarou Valmir santo nem inocente definitivo. Fez algo mais simples e mais incômodo. Disse que, enquanto a controvérsia jurídica não for resolvida com profundidade, ninguém deve ser arrancado da disputa como peça descartável. Em português claro, melhor deixar o povo decidir enquanto os tribunais decidem com calma.
O impacto político é inevitável. Fábio Mitidieri vinha costurando uma reeleição em cenário mais previsível. Com Valmir fora, a oposição parecia fragmentada. Com Valmir dentro, tudo muda. Aliados ficam inquietos. Indecisos se animam. Conversas reaparecem. Cafés são marcados. A política volta a girar.
Há também o fator humano. Valmir passou quatro anos carregando o rótulo de inelegível. Perdeu o governo. Assistiu à eleição do lado de fora. Agora retorna com o discurso de quem caiu, apanhou e voltou. Isso gera empatia. Gera narrativa. Gera voto. Política não é só planilha. É sentimento mal resolvido.
O Judiciário local sai pressionado pelo contraste. Não por erro declarado, mas por diferença de leitura. Quando uma instância superior suspende efeitos tão graves, a pergunta surge sozinha. Excesso. Rigor. Pressa. São perguntas legítimas. O fato é simples. Sergipe acordou diferente. A eleição deixou de ser previsível. O Pato voltou para a lagoa. E quando o Pato volta, a água nunca fica calma.




