O Governo de Sergipe descobriu a mais confortável forma de administrar em ano eleitoral: trocar o serviço público pelo cenário. Na televisão, o Estado virou uma mistura de Dubai com Suíça, cercada de pontes cinematográficas, hospitais reluzentes e escolas que parecem ter acabado de sair da embalagem. Fora do enquadramento, o cidadão ainda procura água na torneira, exame na regulação e atendimento hospitalar sem precisar desenvolver uma amizade de longa duração com a maca. O governo aprendeu que concreto rende drone, fita cortada rende discurso e fachada iluminada rende publicação patrocinada. Paciente esperando vaga, porém, estraga a fotografia e ainda tem a inconveniência de gemer durante a gravação.
O retrato mais constrangedor está no Huse. Em fiscalização divulgada em agosto, foram apontados 105 pacientes da clínica médica aguardando vaga, aproximadamente 100 da clínica cirúrgica na mesma situação, além de pacientes concentrados nas áreas vermelha e de ortopedia. Esses números não descrevem uma dificuldade ocasional, mas uma rede incapaz de fazer o paciente circular até o atendimento adequado. Enquanto a propaganda apresenta novos prédios como prova definitiva de eficiência, o maior hospital de urgência continua funcionando como estacionamento humano da saúde pública. A parede está pintada, a placa está colocada e o discurso está pronto. Só o cidadão permanece no corredor, aguardando que alguma vaga também participe da inauguração.
O Hospital do Câncer representa uma conquista necessária e não deve ser diminuído, mas sua própria implantação revela a diferença entre inaugurar um prédio e entregar toda a capacidade prometida. A unidade foi aberta com funcionamento em etapas, começando pela quimioterapia, enquanto ambulatórios, exames de imagem, internações e outros serviços entrariam progressivamente no cronograma. O problema não é organizar uma abertura gradual, procedimento tecnicamente compreensível. O problema é a comunicação política vender a fotografia da inauguração como se os 230 leitos, todos os equipamentos e cada setor já estivessem simultaneamente à disposição da população. No palanque, o hospital nasce adulto. Na realidade, ainda precisa aprender a andar por fases.
Na água, nem cenário o governo conseguiu conservar. O Ministério Público de Sergipe ajuizou ações civis públicas contra a Iguá após reclamações constantes de moradores sobre interrupções no abastecimento em diferentes bairros de Aracaju. Posteriormente, foi firmado um acordo prevendo R$ 32 milhões em investimentos extraordinários e compensações nas contas dos consumidores afetados. Quando é necessário acionar a Justiça, negociar reparação e discutir desconto porque a água não chegou, alguma coisa falhou muito antes da torneira. O governo estadual, responsável pela concessão e pela fiscalização regulatória, não pode posar apenas como espectador de uma crise produzida dentro do modelo que ajudou a construir. Privatizar a operação não privatiza a responsabilidade política. A conta encontrou o endereço do consumidor com pontualidade britânica; a água, pelo visto, continuou pedindo informações.
Obra pública é importante, gera patrimônio e pode transformar vidas. Mas parede não atende paciente, telhado não realiza exame e ponte alguma substitui equipe, planejamento e serviço contínuo. O verdadeiro indicador de governo não é quantas fitas foram cortadas, mas quantas filas foram reduzidas; não é quantos prédios apareceram no horário eleitoral, mas quantas pessoas encontraram atendimento depois que as câmeras foram embora. Sergipe não precisa de um governador mestre de cerimônias, especializado em inaugurar estruturas e terceirizar explicações. Precisa de gestão que coloque água na torneira, vaga no hospital, professor valorizado na escola e dignidade dentro do prédio. Porque, quando o serviço não chega, obra pronta é apenas ruína antecipada com placa nova e fotografia bonita.




