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O Governo que secou dentro de casa

A informação de que a Iguá teria cortado o fornecimento de água da Secretaria de Estado do Meio Ambiente, Sustentabilidade e Ações Climáticas é tão inacreditável que parece uma piada produzida pela própria máquina pública. O órgão responsável por discutir recursos hídricos, sustentabilidade e preservação ambiental teria ficado sem água dentro de casa. Água é vida, fonte de saúde, alimentação, higiene e dignidade. Sem ela, não há gente, floresta, agricultura, cidade nem discurso ambiental que sobreviva. Entretanto, o Governo de Sergipe aparentemente conseguiu criar uma nova modalidade de gestão: a sustentabilidade sem água, a segurança hídrica sem torneira e a política ambiental movida a nota oficial. Se o episódio for confirmado, restará ao Palácio organizar uma solenidade para inaugurar o primeiro balde institucional, com direito a placa, fotografia e autoridade discursando sobre o compromisso de manter a lata sempre cheia.

O caso seria apenas engraçado se não revelasse uma realidade profundamente cruel. Se a torneira teria secado dentro da Secretaria do Meio Ambiente, imagine o drama enfrentado pela população pobre de Aracaju, Nossa Senhora do Socorro, Barra dos Coqueiros, São Cristóvão e de tantas comunidades do interior. No gabinete climatizado, a falta de água provoca telefonema urgente, reunião extraordinária e constrangimento político. Na periferia, significa criança sem banho, comida que não pode ser preparada, roupa acumulada e idoso sem condições mínimas de higiene. Quando falta água na repartição estadual, corre todo mundo para descobrir o responsável. Quando falta na casa do pobre, aparece uma nota pedindo paciência e compreensão. Paciência, porém, não cozinha feijão, compreensão não enche caixa d’água e promessa não mata a sede. O cidadão abre a torneira e recebe vento, enquanto a conta chega cheia, bem alimentada e mais pontual do que muito serviço público.

No sertão sergipano, a população já escuta há meses uma verdadeira coletânea de desculpas: rompeu a adutora, faltou energia, a estação parou, surgiu uma manutenção emergencial, a pressão baixou ou a tubulação entrou em crise existencial. As justificativas já seriam suficientes para encher um açude, mas água mesmo continua sendo artigo raro. A Iguá distribui, a Deso produz, a Agrese fiscaliza, o Governo acompanha e o povo carrega o balde. Quando o abastecimento falha, cada instituição aponta para o cano da outra, formando o mais eficiente sistema de circulação de responsabilidades já construído em Sergipe. A culpa entra por uma ponta, atravessa comunicados, passeia por reuniões técnicas e desaparece antes de chegar à torneira. A concessão prometeu eficiência e investimentos, mas, até agora, o espetáculo mais visível parece ser o da responsabilidade terceirizada. Privatizaram a distribuição, socializaram o sofrimento e deixaram a população pagando ingresso para assistir ao desfile das desculpas.

O Governo de Sergipe precisa sair do esconderijo burocrático e explicar, com documentos, se houve o corte, por qual motivo, se existia dívida, quem foi notificado e quem permitiu que a situação chegasse a tamanho vexame. Também precisa prestar contas às famílias que convivem com a falta de água muito antes de o problema supostamente alcançar os corredores da Secretaria. Água não é favor de governador, gentileza de concessionária, mercadoria eleitoral nem cenário para fotografia de autoridade. Água é vida e direito básico. Se nem o órgão encarregado de cuidar do meio ambiente consegue manter sua própria torneira funcionando, o sergipano tem razão para desconfiar de que o Governo não administra uma política hídrica, mas um grande rodízio de justificativas. O povo não quer carregar lata d’água na cabeça enquanto o Palácio carrega desculpas para o palanque. Quer abrir a torneira e encontrar água, e não mais um discurso verde, seco e embalado para propaganda.

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