O brasileiro passou quase dois anos ouvindo falar da famosa “taxa das blusinhas”, aquela invenção tributária que conseguiu transformar compra de roupa barata em debate nacional de economia doméstica. O governo de Luiz Inácio Lula da Silva decidiu taxar compras internacionais de até 50 dólares dizendo que era necessário proteger a indústria nacional. Resultado: a dona Maria que comprava vestido barato na internet começou a fazer conta tributária igual contador em fechamento fiscal. Aí agora, misteriosamente, em pleno clima pré-eleitoral, o governo resolve anunciar que acabou a taxa federal. E quer aplauso. É quase o ladrão devolver a bicicleta e ainda pedir abraço emocionado da vítima.
O mais engraçado é a ginástica política da comunicação oficial. Primeiro disseram que a taxa era necessária, justa, moderna, responsável e patriótica. Depois perceberam que o povo não gostou nem um pouco de pagar imposto em cima de cropped, capinha de celular e tênis da promoção. A internet virou um tribunal popular das blusinhas e o governo começou a apanhar mais que WiFi ruim em dia de chuva. Agora surge o discurso salvador: “acabamos com a taxa”. Só esqueceram de avisar que o ICMS estadual continua firme, forte e musculoso. Ou seja: o imposto saiu… mas não saiu tanto assim. É praticamente dieta de político. Diz que emagreceu, mas continua usando o mesmo paletó apertado.
E Sergipe entrou bonito nessa novela tributária. O Estado está entre os que aumentaram ICMS sobre compras internacionais, junto com Bahia, Ceará, Piauí e outros estados. O consumidor sergipano agora entra no aplicativo para comprar uma blusinha de cem reais e termina fazendo cálculo tributário que parece questão do Enem. Porque o ICMS “por dentro” é aquele fenômeno mágico brasileiro onde o imposto entra na conta dele mesmo. Uma coisa tão confusa que parece criada por roteirista de série jurídica com raiva do consumidor. O povo olha a linha “impostos” no carrinho e pensa: “ué, Lula não tinha acabado com isso?”. Aí descobre que o governo federal tirou uma mão enquanto o Estado manteve a outra no bolso da blusa.
No fundo, essa história da taxa das blusinhas virou um retrato perfeito da política brasileira moderna. Primeiro criam o problema. Depois percebem que o povo odiou. Aí voltam parcialmente atrás e tentam vender a retirada como gesto heroico de sensibilidade social. Enquanto isso, a dona de casa, o estudante e o trabalhador seguem tentando comprar uma camiseta sem precisar consultar economista, advogado tributarista e calculadora científica. E o brasileiro vai aprendendo da forma mais dolorosa possível que, no Brasil, até uma simples blusinha consegue virar crise política nacional, guerra ideológica e espetáculo eleitoral transmitido em tempo real.




