Eleição proporcional é uma espécie de aplicativo de mapas da política. Todo candidato diz que vai chegar a Brasília ou à Assembleia, mas poucos sabem explicar por qual estrada. Quando colocamos a nominata do PSD de Sergipe sobre o mapa, aparecem redutos, famílias, prefeitos, mandatos, categorias profissionais e também alguns candidatos que parecem ter sido colocados na chapa com a missão científica de descobrir onde moram seus próprios votos. A convenção homologou Fábio Mitidieri e Jeferson Andrade, nove candidatos a federal e dezesseis a estadual. A fotografia ficou bonita. O problema começa quando alguém pergunta quem, naquela fotografia, terá realmente o governador empurrando a bicicleta na subida.
Fábio conhece eleição proporcional como poucos. Começou vereador em Aracaju, virou deputado federal e depois governador. Sabe perfeitamente que candidatura competitiva é uma coisa e nome para completar nominata é outra completamente diferente. É justamente por isso que a montagem de 2026 chama atenção. Cláudio Mitidieri, primo do governador, disputa deputado federal pelo PSB. Maísa Mitidieri, irmã, tenta novo mandato estadual pelo PSD. Portanto, enquanto muita gente da nominata procura cabo eleitoral, a família Mitidieri já entrou na campanha com sobrenome, estrutura e endereço privilegiado no GPS político. Não existe prova de que Fábio tenha abandonado os demais. Mas também seria uma ingenuidade quase infantil imaginar que, na hora em que dois candidatos pedirem o mesmo prefeito, o mesmo vereador e a mesma dobradinha, parentesco será apenas um detalhe decorativo.
No núcleo majoritário, a prioridade também está bem desenhada. André Moura disputa o Senado, Selma França aparece na suplência e Jeferson Andrade acompanha Fábio como vice. Jeferson, aliás, não é vice de porcelana para colocar sobre a estante. Tem quatro eleições para a Assembleia, presidiu a Casa e construiu rede municipal ao longo dos anos. André Moura também conhece esse esporte. Foi prefeito, deputado estadual, deputado federal e fez mais de 250 mil votos quando disputou o Senado em 2018. Goste-se dele ou não, André sabe onde fica a porta da prefeitura, o telefone do vereador e, provavelmente, o aniversário da mãe do cabo eleitoral. Eleição municipalista é sua praia.
E temos Rogério Carvalho, protagonista de uma das ironias mais saborosas de 2026. Em 2022, Rogério quase tirou Fábio do Palácio. Agora os dois habitam o mesmo grande arranjo eleitoral. Não parece exatamente lua de mel; lembra mais condomínio empresarial. Rogério entra com PT, mandato, Lula e quase 583 mil votos do segundo turno de 2022. Fábio entra com governo, prefeitos, máquina e ampla coalizão. Cada um traz seu patrimônio eleitoral e espera que ninguém mexa demais na parte do outro. É uma sociedade de responsabilidade limitada: abraçam-se no palco, sorriem para a fotografia e, quando chega a urna, cada um confere discretamente se o outro não levou seus clientes.
Na chapa federal, Fábio Reis continua sendo o nome com currículo mais pesado. Lagarto é sua fortaleza e o Centro-Sul, seu quintal político ampliado. Já fez 75.848 votos em 2022 e possui várias eleições federais no currículo. Se alguém precisa ser apontado como referência natural e provável puxador do PSD, ele começa na frente. Só há um pequeno elefante sentado no meio da sala: Cláudio Mitidieri disputa federal pelo PSB. Fábio Reis terá, portanto, de defender seus votos enquanto parte do mesmo agrupamento governista ajuda o primo do governador a buscar uma cadeira. Convenção chama isso de harmonia. Candidato proporcional costuma chamar de “cada um cuide do seu”.
É nesse cenário que Anderson de Zé das Canas pode virar uma surpresa interessante. Ele não começa inventando território em agência de publicidade. Tem Itabaiana, Frei Paulo e Agreste no currículo. Foi vereador, prefeito e reeleito. Precisa provar que consegue transformar voto municipal em voto federal, mas pelo menos sabe onde bater primeiro. Delegada Katarina também não está na chapa para servir cafezinho. Tem mandato, 38.135 votos em 2022, Grande Aracaju e uma marca ligada à segurança pública que atravessa municípios. A disputa entre Fábio Reis, Katarina e Anderson pode produzir muito mais cotovelo que aqueles abraços fraternos das convenções sugerem. Em política proporcional, todo mundo é irmão até o prefeito anunciar com quem vai dobrar.
Nitinho chega com votos reais em Aracaju e 26.696 votos na tentativa federal de 2022, mas precisa provar que sua campanha possui passaporte para atravessar a Grande Aracaju. Flávio Brasil tem Estância, onde foi vereador, mas sair de uma eleição municipal para disputar o Estado inteiro é como trocar a bicicleta da praça por um ônibus interestadual. Neto Batalha mostrou capacidade de crescimento ao sair de vereador de São Cristóvão para quase 15 mil votos estaduais e agora tenta outro salto. Isabel Ferreira e Juliana Vargas ainda precisam desenhar o próprio território, enquanto Dr. Manuel Marcos chega com história, respeito profissional e décadas de política, mas com números recentes que tornam a cadeira federal uma montanha consideravelmente íngreme. A chapa possui candidatos. O que ela não possui igualmente é musculatura.
Para deputado estadual, o PSD tem veteranos que não precisam de Waze. Luciano Bispo sabe onde fica Itabaiana até de olhos fechados. Adailton Martins conhece Barra dos Coqueiros e espalhou sua presença para outros municípios. Maísa Mitidieri tem mandato, sobrenome e a vantagem óbvia de possuir um governador dentro da própria árvore genealógica. Jorginho Araújo tem mandato e circulação estadual aumentada pela passagem pelo governo. Esses nomes começam a corrida sabendo onde procurar voto, enquanto os demais precisam encontrar espaço numa pista já ocupada por gente que conhece cada curva.
Há também candidaturas que merecem atenção justamente pela geografia. Marcell de Maim parte de Campo do Brito com dois mandatos de prefeito e uma rede pronta para tentar expandir pelo Agreste. Carlinhos de Brejo Grande traz décadas de história no Baixo São Francisco. Coronel Alexsandro Ribeiro tenta transformar a experiência no comando da Polícia Militar em voto corporativo espalhado pelo Estado. Enfermeira Gabryella Garibalde enfrenta desafio parecido com a enfermagem.
Depois vêm aqueles cuja principal missão eleitoral ainda é construir um mapa. Sandra Ciganinha, Adroaldo Júnior, Alice Caroline, Bruno Vasconcelos, Diego Seo Chico, Gil da Saúde, Samira Daud e Sidiclei Fonseca possuem histórias, profissões, relações e diferentes pontos de partida, mas não apresentam, pelos dados disponíveis, bases eleitorais comparáveis às dos principais nomes da chapa. Alguns tentarão transformar profissão em eleitorado. Outros, redes pessoais em voto. Outros ainda terão de descobrir uma verdade bastante cruel: seguidor não é eleitor, cliente não é eleitor, colega de profissão não é automaticamente eleitor e curtida, infelizmente, ainda não entrou no cálculo do quociente eleitoral.
E então voltamos ao personagem que paira sobre toda essa geografia: Fábio Mitidieri. O governador pode abraçar os candidatos, discursar sobre unidade e aparecer sorrindo na fotografia oficial. Mas haverá uma hora em que prefeito perguntará: “Governador, com quem eu dobro?”. Vereador perguntará: “Para quem vai a estrutura?”. Liderança perguntará: “Quem é prioridade?”. E Fábio terá diante dele o primo Cláudio para federal, a irmã Maísa para estadual, a tia Selminha França suplete a Senado e uma enorme nominata do PSD esperando carinho, voto e combustível. É aí que termina a poesia das convenções e começa a matemática da sobrevivência.
Porque convenção é fotografia de família. Urna é inventário. Na fotografia, todos cabem, todos sorriem e ninguém pergunta quem herdará a casa. No inventário, aparece quem tem patrimônio eleitoral, quem tem apenas esperança e quem descobriu tarde demais que amizade com o Palácio não paga sozinho uma campanha. O PSD possui nomes fortes, candidatos competitivos e boas surpresas possíveis. Mas carrega uma pergunta que ficará mais barulhenta à medida que outubro se aproximar: Fábio Mitidieri está trabalhando para eleger uma chapa ou a chapa está trabalhando enquanto Fábio administra as prioridades da família e do seu núcleo político? Quando prefeitos e votos começarem a ganhar destino, não será mais necessário perguntar. O mapa responderá.





Uma resposta
Excelente desenho da atual conjuntura!!!