O futebol resolveu transformar a quinta-feira num grande espetáculo de sofrimento coletivo. Na Colômbia, o Independiente Medellín conseguiu a proeza de cancelar um jogo da Libertadores contra o Flamengo depois de a torcida transformar o estádio num cenário de guerra, com sinalizador, bomba, laser e confusão prá todo lado. Em Aracaju, o Confiança não chegou a tanto, mas fez algo igualmente doloroso para o torcedor azulino. Perdeu mais uma. E o sergipano já começa a achar que a única esperança de felicidade futebolística no Batistão é a Conmebol mandar o Flamengo jogar aqui toda semana.
Enquanto em Medellín a torcida entrou em combustão porque o time vive uma crise gigantesca, em Sergipe o torcedor do Dragão já está quase pedindo treinamento militar emocional antes de cada partida. O Fortaleza entrou no Batistão parecendo que estava jogando no quintal de casa. Fez dois gols, administrou o jogo e ainda deixou o Confiança correndo atrás da bola igual menino tentando pegar carro de picolé na ladeira. O Dragão até tentou reagir no segundo tempo, fez um golzinho de pênalti e colocou um pouco de emoção. Mas emoção sem resultado é igual churrasco sem carne. Só fica a fumaça.
E o mais engraçado é que o torcedor sergipano já começa a olhar para essa confusão da Libertadores com um certo romantismo futebolístico. O sujeito viu bomba, sinalizador, estádio pegando fogo emocionalmente e pensou logo: “rapaz… se Miltinho Dantas convencer a Conmebol a trazer Flamengo e Medellín pro Batistão, pelo menos o povo esquece as derrotas do Confiança por uma noite”. Porque do jeito que a coisa anda, a torcida azulina está aceitando até jogo interrompido internacionalmente para dar uma animada no ambiente.
O Confiança virou aquele amigo que toda semana promete mudar de vida, entrar na academia, pagar as dívidas e parar de sofrer por amor. A torcida acredita. Compra ingresso. Faz festa. Toma chuva. Aí chega no jogo e toma logo um gol cedo para manter a tradição do aperreio. O Fortaleza abriu o placar com tanta facilidade que parecia entrega de delivery. Quando o segundo gol saiu, tinha torcedor no Batistão olhando para o céu e perguntando discretamente se ainda dava tempo de virar torcedor de vôlei.
Mas no fim das contas, o futebol é isso mesmo. Uma mistura de tragédia, esperança e humor involuntário. Em Medellín, a torcida explodiu porque o time afundou. Em Aracaju, a torcida do Confiança continua naquela fase em que o maior título recente é continuar comparecendo ao estádio depois de tanta pancada emocional. E talvez seja exatamente por isso que o futebol sobreviva. Porque o torcedor sofre, reclama, xinga, gripa, promete largar tudo… mas domingo está de novo sentado na arquibancada dizendo: “Vamos subir Dragão”.




