Em Brasília, o poder já não usa somente a faixa presidencial. O Congresso controla a pauta, ampliou sua influência sobre o Orçamento e transformou as emendas parlamentares em instrumento central de negociação. Lula continua chefe do Executivo e conserva poderes relevantes, mas depende de deputados e senadores para aprovar medidas provisórias, projetos estratégicos e indicações ao Supremo. O presidente segura a caneta; o Congresso decide muitas vezes quando, onde e em que condições ela poderá ser usada.
Isso explica por que o país vive uma espécie de presidencialismo tutelado. O Planalto propõe, mas o Legislativo pode modificar, retardar ou simplesmente enterrar a proposta. Uma medida provisória pode chegar anunciada como urgente e morrer enquanto os partidos discutem relatorias, cargos e espaços de poder. Não é parlamentarismo formal, porque a Constituição continua presidencialista. Na prática, porém, nenhum presidente governa sem negociar cada passo com um Congresso fortalecido pelo controle do dinheiro e da agenda.
Por isso, partidos como MDB, Republicanos, PP e União Brasil não têm pressa em escolher um candidato à Presidência. Para essas legendas, formar uma grande bancada pode valer mais do que apostar antecipadamente em Lula, Flávio Bolsonaro ou qualquer outro nome. Quem elege muitos deputados chega ao governo seguinte com votos, orçamento e poder de barganha. A neutralidade apresentada como tentativa de “pacificar o país” também protege os partidos do risco de apostar no cavalo errado. Na política brasileira, ficar em cima do muro não é falta de posição; muitas vezes é estratégia para negociar com quem vencer.
Existe ainda o receio de lideranças partidárias diante de investigações da Polícia Federal e decisões do Supremo. Essa percepção circula nos bastidores, especialmente entre políticos com processos ou aliados investigados. Mas é preciso cuidado: medo político não é prova de perseguição. Sem evidências concretas, afirmar que um partido sofrerá represálias por apoiar determinado candidato transforma análise em teoria conspiratória. O Centrão pode temer a polícia, a Justiça e a derrota eleitoral, mas teme sobretudo perder cargos, orçamento e capacidade de influência.
Para Sergipe, essa discussão é decisiva. Deputados e senadores bem posicionados conseguem recursos, ocupam comissões, relatam projetos e abrem portas em Brasília. Os fracos passam quatro anos gravando vídeos e dizendo que “cobraram providências”, expressão que virou o exercício oficial de quem não consegue entregar resultados. O eleitor sergipano precisa olhar menos para a fotografia ao lado do presidenciável e mais para a capacidade de cada candidato de defender o estado, fiscalizar recursos e explicar onde aplica suas emendas. O presidente governa, o Congresso negocia e o cidadão paga a conta.




