Na política sergipana, coerência raramente anda sozinha. Quando aparece, costuma chegar atrasada, sair antes do fim ou ficar apenas o tempo suficiente para a foto oficial. O anúncio do prefeito de Lagarto, Sérgio Reis e do seu irmão, o deputado Fábio Reis, declarando apoio ao senador Alessandro Vieira para o Senado produziu exatamente esse efeito: mais um capítulo do teatro político local, com bastidores em ebulição, aliados coçando a cabeça e uma pergunta que ecoa nos corredores do poder como refrão de música chiclete: quando foi mesmo que isso mudou?
O gesto, isoladamente, já teria peso. Mas o tempero está no histórico e, sobretudo, no contraste. Alessandro Vieira nunca foi exatamente um aliado da família Reis. Pelo contrário. Em outros momentos, foi um crítico duro, direto e nada econômico nas palavras. Chamou Fábio Reis de “preguiçoso”. Classificou Sérgio Reis como “ficha suja”. Falou com o dedo em riste, no tom de quem denuncia e combate. Agora, aparece ao lado dos dois em clima de cordialidade institucional, sorriso aberto, pose de foto e aperto de mão digno de cartão-postal. A política explica esse tipo de virada. A memória coletiva, nem sempre.
É como se o roteiro tivesse sido reescrito sem apagar os capítulos anteriores. O mesmo personagem que apontava defeitos morais e políticos agora divide o enquadramento, sem ressalvas públicas, sem nota de rodapé, sem aquele “foi mal” que não muda o mundo, mas ajuda a organizar a narrativa. O eleitor observa a cena e tenta decifrar: o preguiçoso deixou de ser preguiçoso? A ficha suja foi lavada? Ou apenas mudou o ângulo da câmera?
Para entender o movimento, é preciso sair do discurso e entrar no orçamento. Na política municipal, ideologia raramente paga conta. Quem paga é emenda. No primeiro momento, quando Sérgio e Fábio Reis anunciaram apoio a Rogério Carvalho, o fator decisivo não foi afinidade programática, mas a capacidade objetiva de atender demandas de Lagarto. Rogério é senador em exercício, com instrumentos concretos para direcionar recursos. A lógica foi simples e antiga: quem ajuda no agora ganha espaço no palanque.
O mesmo raciocínio se aplica ao apoio anunciado agora a Alessandro Vieira. Como senador, ele dispõe de emendas, acesso a ministérios e capacidade de articulação em Brasília. Prefeitos governam com cobrança diária, obra atrasada e demanda batendo à porta. Nesse cenário, pragmatismo costuma falar mais alto que discurso passado. A política local funciona menos como livro de memórias e mais como planilha aberta.
Nesse tabuleiro entra um elemento que ajuda a explicar o ruído: André Moura. Diferentemente de Rogério e Alessandro, André não exerce mandato parlamentar no momento. Logo, não dispõe de emendas para destinação direta. Isso não o diminui politicamente, mas o coloca em desvantagem prática num jogo em que prefeitos precisam mostrar resultados imediatos. A política real não costuma premiar quem promete futuro quando o presente aperta.
Esse dado ajuda a entender por que alianças improváveis se formam e por que críticas duras evaporam com rapidez surpreendente. Ajuda também a explicar a postura do governador Fábio Mitidieri, que tem evitado se envolver diretamente nessas escolhas municipais. Não interferir, nesse caso, também é estratégia. Dá autonomia aos prefeitos, preserva pontes e mantém espaço para negociação adiante.
Ainda assim, nos bastidores, a leitura predominante é de que existe ao menos um consentimento tácito do Palácio em alianças que acabam excluindo André Moura em municípios estratégicos. Não se trata de veto explícito, mas de acomodação política. Em Sergipe, silêncio raramente é ausência. Normalmente é linguagem.
O impacto foi imediato na base ligada a André Moura. A coincidência do anúncio com a visita do governador a Lagarto foi lida como sinal. Coincidências, em política, quase sempre têm endereço. E silêncio, quase nunca é neutro.
Nesse ambiente, a postura de André Moura chama atenção pelo contraste. Sereno, paciente e calculista, preferiu não atropelar o processo. Havia uma conversa ensaiada com Gustinho Ribeiro. Poderia ter acelerado, fechado e anunciado. Não fez. Optou por esperar o desfecho da equação Lagarto, demonstrando leitura de cenário e respeito ao tempo político. Em tempos de ansiedade crônica, esperar virou ato de estratégia.
Lagarto, todos sabem, é território de disputas profundas. Grupos históricos que não se misturam, não se conciliam e não fingem neutralidade. Água e óleo. Bole Bole e Saramandaia. Nesse contexto, o alinhamento de Sérgio e Fábio Reis com Alessandro Vieira redesenha o jogo e produz uma cena quase didática: o senador que construiu parte da sua imagem atacando personagens da política local agora caminha ao lado deles. A política chama isso de realinhamento. O eleitor chama de ironia bem fotografada.
No fundo, o episódio revela mais sobre o funcionamento real da política sergipana do que sobre discursos de ocasião. Revela que emendas ainda organizam alianças, que palavras duras têm prazo de validade e que a memória política costuma ser seletiva. Revela também que atacar alguém hoje não impede, amanhã, de dividir palanque, sorrir para a câmera e seguir em frente como se nada tivesse sido dito.
Ao eleitor, resta observar com atenção. Porque na política, como na boa literatura, os personagens mudam de papel, mas o enredo deixa pistas. E Lagarto, mais uma vez, ocupa o centro da narrativa sergipana, onde pragmatismo, ironia e cálculo eleitoral caminham juntos, mesmo quando o discurso insiste em fingir que não.




