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O redesenho de um novo olhar!

Ouvia dizer, a distância, que o transplante é a sinfonia perfeita de silêncios, amores e recomeços… Ele não só substitui uma parte do corpo, mas redesenha a almaAgora, percebi a vastidão da mensagem… Eu não recebi apenas um órgão novo: ganhei o tempo, o amor, a dedicação, anos e anos de estudos e a renúncia de outros, inonimados.

Quantos e tantos aguardam por um órgão! E “como” e “quanto” aguardam! Escrever essas linhas é, amplificadamente, cumprir meu papel no mundo, dar voz aos transplantes, aos transplantados e a toda a rede que os envolvem!Foi assim: no silêncio que antecedeu a luz, o mundo era uma aquarela desbotada, um rascunho de algumas sombras onde a vida insistia em pulsar, mas sem o brilho e a nitidez total de seus contornos. Era assim que eu enxergava!

Olho para a sociedade, para o vaivém das pessoas nas ruas e não vejo apenas rostos: enxergo histórias, conexões e uma teia invisível de solidariedade que nos une (e que deveria ser muito maior, confesso!).Compreendi que receber órgãos não é um privilégio para ser guardado, mas um chamado para estender a mão, para ser farol na vida de quem ainda caminha por entre as névoas.

A minha nitidez no olhar e a cura são frutos de duas pessoas, cujos nomes, talvez, eu nunca saiba; e de seus familiares, no momento de sua dor mais profunda. Eles escolheram o amor. Disseram “sim” à vida e a minha renovada visão.Através de mim, a história deles continua a ver o mundo, a sorrir para as flores e a se emocionar com o pôr do sol, com as crianças, com os idosos e com os pets…a perceber a grandiosidade dos detalhes (e há muitos!). A doação de órgãos é, sem dúvida, a forma mais pura e divina de imortalidade. É lindo de se ver!!!

As horas que passei na quietude da recuperação foram preenchidas por infinitas reflexões. Pensava no mistério da existência, na fragilidade do nosso corpo e na grandeza da ciência, conduzida por mãos abençoadas. E, por falar nessas mãos… Elas são jovens, com 31 anos de idade. São muito competentes e humanizadas. O cirurgião que realizou meus procedimentos representa, aqui, todos os profissionais da imensa rede que se forma para viabilizar os mais variados transplantes e uma vida nova.
A ciência, mais uma vez, se fez luz, poesia, presente!

Contemplar a vida, agora, é um exercício de profunda emoção, por isso, também, escrevo e registro com imagens. Você já notou certamente. Sou um transplantado, que muito se orgulha e agradece, e que escreve com o coração e com duas córneas de outros “alguém”. Seja o motivo do recomeço de “alguém” e de “alguns” e dos seus entornos. Porque, como tão sabiamente compôs Jota Quest, em 2015, “Daqui só se leva o amor”…. Agora, no meu corpo, somos eu e mais dois seres e vários e vários corações, cujos sonhos ficaram adormecidos.

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