O brasileiro descobriu que consegue passar cinco horas vendo vídeo curto de gente ensinando “como ficar milionário vendendo curso para quem quer ficar milionário”, mas não consegue ler três páginas seguidas sem abrir o Instagram para ver quem terminou namoro, quem foi traído ou quem postou indireta com música de Marília Mendonça. E as livrarias começaram a sentir isso no caixa. Intelectuais, escritores e editores vêm alertando que o problema não é falta de livro bom. O problema é que o algoritmo sequestrou a atenção do cidadão igual agiota sequestra cartão de aposentado.
Nas redes sociais, muita gente já trata leitura como se fosse atividade olímpica de resistência mental. O sujeito consegue decorar temporada inteira de série coreana, teoria da conspiração no TikTok e até treta de vereador no interior, mas trava quando vê um capítulo com mais de quatro páginas. Enquanto isso, livrarias diminuem movimento, cafés literários ficam mais vazios e autores tentam competir com dancinha, meme e coach gritando “acorde às 4h59 da manhã para vencer”. A humanidade trocou Machado de Assis por tutorial emocional de 22 segundos narrado por voz robótica.
E talvez por isso o Portal Fausto Leite resolva fazer quase um serviço público afetivo neste fim de semana: lembrar que ainda existe um mundo fora da tela. Um mundo silencioso, inteligente e perigosamente viciante chamado leitura. Entre os lançamentos de maio, Mariana Salomão Carrara mergulha no universo jurídico em “Claudia Vera Feliz Natal”; a Nobel Olga Tokarczuk lança “Terra de Empusas”, releitura feminista de “A Montanha Mágica”; Ian McEwan investiga os caminhos da literatura em “O Que Podemos Saber”; Tamara Klink relata sua aventura gelada em “Bom Dia, Inverno”; e Fredrik Backman chega com “Meus Amigos”, misturando amizade e mistério.
Então fica aqui a sugestão mais revolucionária do fim de semana sergipano: desligue um pouco o celular, abandone por algumas horas a guerra política do feed, o vídeo motivacional do falso milionário e o especialista em tudo que apareceu ontem na internet. Vá para uma varanda, uma rede, um café ou até para o silêncio do quarto. Porque às vezes o cidadão não está cansado da vida. Está apenas intoxicado de tela.




