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O TSE, o impulsionamento e a nova disputa nas redes

O Tribunal Superior Eleitoral resolveu mexer no tabuleiro das eleições digitais. A proposta em debate no TSE permite que qualquer perfil nas redes sociais impulsione conteúdo político pago, mesmo sem vínculo com partidos, candidatos ou campanhas oficiais. A justificativa é preservar a liberdade de expressão. O efeito colateral, no entanto, pode ser bem mais barulhento.

Na prática, o impulsionamento deixa de ser apenas uma ferramenta de campanha e vira um megafone liberado para quem tiver dinheiro e disposição. Não se trata de engajamento orgânico, curtida espontânea ou debate natural. Impulsionar é comprar alcance, segmentar público e furar o bloqueio do algoritmo no cartão de crédito.

Com isso, nasce uma zona cinzenta na disputa política digital. Candidatos e partidos seguem presos a teto de gastos, regras e fiscalização. Já perfis “independentes”, financiados por interesses não transparentes, podem turbinar narrativas críticas ou elogiosas fora do radar eleitoral. É como jogar futebol com juiz para um time e sem juiz para o outro.

A regra vale para todos os lados. Dá para atacar, defender, exaltar, destruir reputações ou fabricar heróis políticos com a mesma facilidade. Basta pagar. O debate público deixa de ser sobre ideias e passa a ser sobre orçamento.

Outro ponto sensível está na responsabilização. Pela proposta, punições mais duras ficariam restritas a perfis falsos, robôs ou crimes claramente tipificados. Pessoas reais, com CPF, foto e seguidores, poderiam espalhar desinformação de forma reiterada sem maiores consequências, desde que não ultrapassem a linha penal. A mentira constante vira “opinião insistente”. O boato profissional ganha selo de normalidade.

A experiência recente do Brasil mostra que ataques à democracia não dependem de maioria social. Dependem de financiamento, coordenação e circulação intensa de narrativas em ambientes pouco regulados. O episódio de 8 de janeiro deixou isso claro. Não foi espontâneo, foi organizado e amplificado.

O TSE afirma que as resoluções ainda passarão por audiências públicas. O debate é necessário. Sem ajustes que reforcem transparência, equilíbrio e responsabilidade, a Justiça Eleitoral corre o risco de criar um novo mercado paralelo de comunicação política, onde vence quem fala mais alto porque pagou mais caro. No fim, a pergunta que fica é simples e incômoda: queremos uma democracia de ideias ou uma democracia de impulsionamentos? Se a resposta for a segunda, talvez seja honesto avisar logo ao eleitor. Em 2026, além do voto, vai contar também o limite do cartão.

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