Aracaju está assistindo a uma novela que mistura tragédia administrativa com comédia involuntária. Ônibus elétricos milionários, comprados de forma que o Tribunal de Contas do Estado (TCE/SE) classificou como irregular, circulam pela cidade sem licenciamento, como se fossem fantasmas automotivos ignorando o Código de Trânsito Brasileiro. Enquanto isso, a população segue esperando no ponto de ônibus, pagando caro por um transporte precário e assistindo, de camarote, ao improviso que tomou conta da Prefeitura.
O TCE puxou o freio de mão na farra da prefeita Emília Corrêa. A corte encontrou sobrepreço de até R$ 850 mil por ônibus, gerando um rombo potencial de R$ 28,5 milhões, e determinou a retomada da licitação suspensa por decisão unilateral da prefeita, sob pena de multa pessoal. Para completar a cena surreal, boa parte da frota sequer está licenciada, algo que qualquer cidadão comum sabe ser motivo de apreensão imediata numa blitz. Mas, em Aracaju, parece que ônibus milionários têm salvo-conduto, enquanto o povo que atrasa o IPVA sente na pele a dureza da lei.
E aqui cabe lembrar uma verdade que dói: quem entregou a Prefeitura ao sistema foi a própria Emília Corrêa. Eleita pelo povo com discurso de independência, tomou posse no 1º de janeiro com promessa de governar para as ruas, mas, na prática, quem administra a cidade é Edivan Amorim, o núcleo que domina os bastidores e tomou conta das decisões estratégicas, segundo o vereador Elber Batalha. A prefeita virou coadjuvante na própria gestão, enquanto a máquina segue tocada por quem conhece bem os atalhos do poder.

O episódio dos ônibus elétricos escancara essa captura política. Licitação interrompida no grito, adesão a atas ilegais, veículos sem licença, tudo feito como se Aracaju fosse um puxadinho de gabinete. E, para piorar, a trilha sonora dessa confusão administrativa parece saída da cabeça da própria prefeita, que poderia caminhar pela sede da Prefeitura ouvindo os versos que ecoam como confissão: “Eu conheço o medo de ir embora//Não saber o que fazer com a mão// Gritar pro mundo e saber// Que o mundo não presta atenção…”
É quase um retrato psicológico da atual gestão: perdida entre promessas e improvisos, tentando acreditar que “de algum jeito vai passar”, enquanto o Tribunal de Contas lembra que gestão pública não se faz de esperança e marketing, mas de legalidade e responsabilidade.
A decisão do TCE foi mais que técnica: foi pedagógica e política. Determinou que os documentos da compra fossem apresentados, que a licitação fosse retomada e que as regras fossem respeitadas. Deixou claro que não existe cidade inteligente com gestão que insiste em ser burra, e que modernidade não se mede por cor de ônibus, mas pela honestidade do processo e pelo respeito à lei.
No fim, a imagem que fica é quase literária: ônibus novos, caros e elétricos circulando como fantasmas, à espera da primeira blitz que os transforme em enfeites do pátio do Detran. E a prefeita, que prometeu independência e pulso firme, hoje se agarra ao refrão melancólico da música: “Lembra se puder, se não der, esqueça… de algum jeito vai passar.” Mas, na vida real, não passa. O tempo da irresponsabilidade administrativa sempre chega com cobrança e agora quem cobrou foi o TCE. E… “É desse jeitoooo!!!”.




