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Pisadinha, varanda e provocação: em Capela, até a carreata tem endereço certo

Se política fosse novela, Capela já estaria na 18ª temporada, com direito a reprise, capítulo especial e “cenas dos próximos episódios”. De um lado, Cristiano Cavalcante e seu grupo, com pisadinha, carreata, carro de som e disposição para mostrar força. Do outro, Manoel Sukita, que pode estar sem mandato, sem palanque e quase de chinelo dentro de casa, mas basta ouvir uma buzina na rua para ressuscitar politicamente em cinco segundos. Neste sábado, a festa de Cristiano terminou novamente nas proximidades da casa de Sukita. Pronto. Era tudo que faltava. A carreata ganhou palco, a varanda virou camarote e Capela recebeu mais um capítulo da novela: Cristiano passa, Sukita aparece e ninguém consegue resistir à provocação.

E não é novidade. Em julho, depois de uma vitória de Júnior Tourinho no TRE, uma carreata passou diante da residência de Sukita. Silvany Mamlak gesticulou e mandou um “você está louco, acabou”. Sukita respondeu da sacada, sorrindo e acenando, com aquela tranquilidade de quem parece pensar: “acabou tanto que vocês vieram comemorar aqui na minha porta”. Esse é o paradoxo maravilhoso da política capelense. O adversário quer demonstrar que Sukita perdeu importância e escolhe exatamente a casa de Sukita para fazer a demonstração. É como organizar o enterro de alguém e entregar o microfone para o suposto defunto fazer o discurso.

Sukita, claro, também não é vítima inocente desse teatro. Pelo contrário. É praticamente roteirista, ator e diretor da própria confusão. Já disse que “quem tem poder não é quem tem mandato, é quem tem história”, chamou Cristiano de “avoado” e coleciona provocações políticas como quem coleciona troféus. Há relatos de comemoração na porta de adversário, carrinho com caranguejos usado para ironizar rivais e uma habilidade impressionante para transformar qualquer ataque numa oportunidade de reaparecer. Cristiano também não deixa barato. Quando Sukita colocou na fachada que teria sido “o melhor prefeito da história”, o deputado respondeu que ele seria o maior apenas “no número de escândalos”. Aí pronto: um joga gasolina, o outro procura o fósforo. Em Capela, debate político às vezes parece menos ciência política e mais disputa para descobrir quem consegue irritar o outro primeiro.

O mais divertido é que Cristiano e Sukita parecem politicamente presos um ao outro. Cristiano tenta provar que Sukita acabou, e Sukita usa Cristiano para provar exatamente o contrário. Um provoca, o outro cresce. Um passa na porta, o outro vira notícia. Um grita que o rival morreu politicamente, e o rival aparece na varanda para conferir pessoalmente o próprio velório. Até os tradicionais bacamartes de Capela devem estar começando a sentir inveja, porque nessa guerra ninguém precisa de pólvora: as línguas já fazem estampido suficiente. No fim, Sukita descobriu uma fórmula extraordinária de sobrevivência política: não precisa organizar a carreata, pagar o carro de som nem puxar a pisadinha. Basta esperar Cristiano aparecer na rua. O adversário faz o evento e Sukita ganha a manchete.

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