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PISO NOVO, COFRE VELHO: BRASÍLIA FAZ A FESTA E O PREFEITO PAGA O BUFFET

O Congresso descobriu uma fórmula espetacular para arrancar aplausos: anuncia um piso salarial e manda a fatura para o interior do Brasil. A Comissão de Educação do Senado aprovou proposta de remuneração mínima para profissionais de apoio escolar, como merendeiras e trabalhadores administrativos, vinculada a 75% do piso dos professores nas condições previstas no projeto. Valorizá-los é justo, necessário e urgente. Mas o parlamentar bate no peito em Brasília, aparece sorrindo na fotografia e deixa o prefeito sergipano com a calculadora na mão e a pressão nas alturas. É o milagre da multiplicação das despesas, só que sem a parte da multiplicação do dinheiro!

Nas 75 prefeituras de Sergipe, o assunto não é brincadeira. O FPM, que ajuda a manter serviços básicos sobretudo nas cidades pequenas, oscila com a arrecadação; o terceiro repasse de outubro de 2026 registrou queda real de 2,4% ante o mesmo período do ano anterior. E imagine uma prefeitura com cem trabalhadores abrangidos que recebam R$ 2 mil de vencimento básico: chegar a R$ 3.847,97 custaria cerca de R$ 2,22 milhões a mais em doze meses, antes de encargos e reflexos. É simulação, não a conta de uma cidade específica. Agora coloque transporte escolar, remédio, combustível e fornecedor na fila. O secretário de Finanças não precisa de cafezinho. Precisa de um desfibrilador!

O detalhe que costuma desaparecer na propaganda é pequeno, pequenininho, só do tamanho de um orçamento municipal: quem banca? O Fundeb pode custear remuneração de profissionais elegíveis conforme a legislação, mas não existe, por causa dessa votação, um cheque federal extra automaticamente depositado nas contas das prefeituras. E o projeto ainda não virou lei. Antes de soltar fogos, Congresso e governo federal precisam apresentar estimativa séria do impacto, fontes de financiamento e prazo de adaptação. Porque aprovar despesa com dinheiro alheio é fácil. Difícil é explicar à merendeira por que o piso foi prometido enquanto faltou verba até para consertar o fogão!

O trabalhador da escola merece salário digno; o cidadão também merece escola aberta, merenda na mesa e contas pagas. É aí que entram as responsabilidades: os prefeitos devem abrir suas folhas, a Federação dos Municípios precisa consolidar os números e o Tribunal de Contas pode cobrar planejamento, transparência e respeito às regras fiscais. Não há prova de que as 75 prefeituras vão fechar as portas, mas há razão suficiente para exigir a conta antes da canetada final. Brasília não pode vender almoço grátis com o cartão de crédito dos municípios. No fim, a plateia aplaude o discurso, o senador sai para a próxima solenidade e o prefeito fica na cozinha, olhando a panela vazia e perguntando quem vai pagar o gás.

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