Durante anos, trataram a Igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem, na Praia do Saco, como se fé e meio ambiente fossem inimigos de infância que não podiam sentar na mesma mesa. Como se proteger a restinga exigisse apagar a memória de um povo inteiro. A velha igreja, plantada diante do mar e guardada no coração da comunidade, virou personagem principal de uma novela judicial digna de horário nobre, com direito a Ministério Público Federal, União, Estado, Município, IBAMA, ADEMA e uma população inteira assistindo de pé, sem querer perder nem a praia nem a própria alma. O problema nunca foi apenas uma parede antiga. Era o choque entre o patrimônio ambiental e o patrimônio afetivo, aquele que não cabe em perícia, mas mora na lembrança de quem cresceu ali.
A cronologia dessa história começou oficialmente em 2014, quando o MPF ajuizou a Ação Civil Pública nº 0800002-72.2014.4.05.8502, apontando ocupações irregulares, construções em APP, esgoto contaminando lençol freático, aterramentos, invasões da faixa de areia e o velho hábito brasileiro de achar que praia pública é quintal privado de casa de veraneio com piscina e pista de avião. A Justiça mandou fiscalizar, ordenar, retirar irregularidades e devolver dignidade urbanística à região . Só que, no meio da operação pente-fino, a comunidade acendeu o alerta: “mexer na igreja não”. E aí o processo deixou de ser só jurídico e virou quase procissão cívica.
Nas redes sociais, o povo da Praia do Saco fez o que o brasileiro sabe fazer quando mexem com sua memória: mobilização com fé, indignação e comentário em caixa alta. Vídeos circularam, moradores deram entrevistas, comerciantes se manifestaram e a velha capela deixou de ser apenas igreja para virar símbolo de resistência cultural. Muita gente lembrava batizados, promessas pagas, casamentos simples e despedidas silenciosas diante daquele altar. A repercussão foi tanta que até a própria Justiça Federal precisou esclarecer publicamente que não havia determinação de “destruição” pura e simples da capela, mas desmontagem e eventual realocação dentro de critérios técnicos . Traduzindo: quando o povo gritou, Brasília ouviu até com eco de maré.
Foi justamente nesse momento que o bom senso precisou vestir terno e entrar na audiência. A solução não podia ser arrancar patrimônio histórico como quem arranca placa de trânsito depois de campanha eleitoral. Era preciso inteligência jurídica, sensibilidade institucional e coragem política. E foi aí que o procurador do Município de Estância, Alysson Leite, mostrou que Direito também pode servir para construir e não apenas demolir. Ele entendeu algo simples, mas revolucionário para certos gabinetes: processo não serve para destruir cidades, serve para organizá-las. Sua atuação ajudou a transformar uma guerra de teses em uma ponte de diálogo entre preservação ambiental e respeito à identidade local.
O acordo homologado agora pela Justiça Federal representa exatamente isso: maturidade institucional com menos grito e mais solução. Em vez de uma sentença seca e uma retroescavadeira emocional, foi construída uma saída negociada entre MPF, Estado de Sergipe, Município de Estância, União, ADEMA e IBAMA, reconhecendo que se trata de um verdadeiro litígio estrutural . O pacto prevê cinco eixos: planejamento territorial, fiscalização de ocupações, criação da ARIE das Dunas do Saco, educação ambiental e monitoramento com transparência social. Não é maquiagem de audiência. É reestruturação concreta da vida real. É menos improviso e mais responsabilidade.
Esse acordo não salva apenas uma igreja. Ele salva uma narrativa e impede Sergipe de cometer o pecado administrativo de confundir preservação com amnésia. A Igreja da Boa Viagem não é apenas um prédio sacro; ela é testemunha de gerações, de promessas feitas em silêncio, de turistas curiosos, de moradores orgulhosos e de um povo que aprendeu a olhar o mar como quem olha a própria história. Alysson Leite merece aplauso porque entendeu antes de muitos que patrimônio não se mede só com régua ambiental, mas também com memória coletiva. Há vitórias que não cabem na sentença. Algumas cabem no coração da cidade. E essa, definitivamente, veio com cheiro de maresia e gosto de justiça.




