Há decisões públicas que ninguém gosta de tomar, mas todo mundo precisa. Falar de cemitério não rende aplauso fácil, não vira vídeo motivacional e dificilmente estampa slogan de campanha. Ainda assim, alguém precisa encarar o tema com seriedade. E foi exatamente isso que a prefeita Emília Corrêa fez ao colocar na mesa algo que Aracaju empurra há anos para debaixo da lápide do improviso: a cidade simplesmente não tem mais onde enterrar seus mortos com dignidade.
Pode parecer mórbido, mas é gestão básica. Cidade cresce, população cresce, a vida segue e, inevitavelmente, o fim também chega. O problema é que Aracaju cresceu fingindo que isso não acontecia. Hoje, os cemitérios públicos estão no limite físico, estrutural e humano. O São João Batista, único cemitério público municipal em funcionamento, opera em condições que ninguém ousa chamar de adequadas. Não se fecha porque não há alternativa. Fecha-se o quê, se não há para onde ir? Até morrer virou fila de espera.
Na Zona de Expansão, o Cemitério Maria Rosa já trabalha acima da capacidade, numa espécie de Tetris funerário que desafia qualquer noção de planejamento urbano. No Mosqueiro, a situação beira o surreal. O Cemitério do Nelito e o do Agreste não oferecem estrutura mínima, obrigando famílias a sepultarem seus entes queridos em áreas de difícil acesso, improviso e dor dobrada. No Rubalo, o espaço é tão reduzido que a matemática não fecha. Já o Cemitério dos Náufragos, além da limitação física, carrega peso histórico e simbólico, exigindo ainda mais cuidado.
É nesse contexto que a decisão da prefeita de determinar a elaboração de um projeto para um novo cemitério público na Zona Norte se destaca. Não é apenas uma escolha administrativa, é uma escolha política. E aqui cabe uma comparação inevitável. Enquanto o prefeito de Nossa Senhora do Socorro, Samuel Carvalho, optou por firmar um contrato milionário com um cemitério privado, na casa dos cinco milhões de reais, Emília Corrêa seguiu pelo caminho oposto. Preferiu investir no patrimônio público, em um equipamento que custará infinitamente menos do que esse valor, não por ano, mas ao longo de toda a sua vida útil, e que será da população para sempre.
Essa é a diferença fundamental de visão. Um modelo terceiriza até a morte e transforma o luto em contrato. O outro fortalece o serviço público, garante acesso universal e trata o sepultamento como direito, não como negócio. Um aposta em despesa permanente e dependência privada. A outra constrói um equipamento duradouro, que resolve o problema estrutural da cidade e respeita o cidadão do primeiro ao último capítulo da vida.
A decisão de Emília Corrêa é corajosa exatamente porque não é eleitoralmente confortável. Não rende discurso bonito, mas rende cidade funcionando. Um cemitério estruturado não é luxo, é respeito. Respeito às famílias, à memória, à saúde pública e à própria cidade. Planejar esse tipo de equipamento é olhar para o futuro com realismo, sem empurrar sofrimento para quem já está fragilizado.
Mais do que isso, a iniciativa abre espaço para pensar também a Zona de Expansão como área estratégica para outro equipamento público, aliviando a sobrecarga e encerrando de vez a política do improviso funerário. Aracaju precisa parar de fingir que cabe onde não cabe mais, nem na vida, nem na morte.
Não é uma pauta bonita, mas é uma pauta necessária. E prefeita que governa só para foto costuma fugir desse tipo de assunto. Emília Corrêa não fugiu. Preferiu encarar o tema com seriedade, planejamento e visão de longo prazo. Em tempos de gestão performática, é quase revolucionário ver uma prefeita cuidando até do descanso eterno do cidadão. No fim das contas, administrar uma cidade também é garantir que o último adeus seja feito com dignidade. Aracaju devia isso à sua população há décadas. Alguém, finalmente, teve a coragem de começar.




